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categoria: 2005

HAPPY DAYS

 

Direção: Peter Brook
Elenco: Miriam Goldschmit, Wolfgang Kroke

 

Por: Amanda Moreno

Happy days,” (dias felizes), peça do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906- 1989), dirigida pelo aclamado diretor britânico Peter Brook, é uma das maiores atrações do 12º Porto Alegre em Cena. Já apresentada nos mais importantes teatros da Europa, é reconhecida internacionalmente, encenada pelos atores alemães Mirian Goldschimidt e Wolfgang Kroke.
A peça tem como protagonista Winnie (Mirian), uma senhora que, na primeira parte da peça, aparece enterrada até a cintura em um deserto, com nada em sua volta além de um saco que contém seus utensílios diários. Seu marido, Willie (Wolfgang), fica ora dentro de um buraco, ora dormitando ao pé do morro onde Winnie está enterrada, sem que essa o possa enxergar. Winnie fala sobre coisas ordinárias, aparentemente sem sentido, mas que têm um significado muito mais profundo e complexo. E o faz quase sem nenhuma manifestação de seu marido, o que torna a peça semelhante a um monólogo. Porém, o próprio diretor nega isso ao afirmar que Beckett jamais faria um monólogo. Segundo ele, Winnie se comunica com palavras, e Willie com o silêncio.
Na segunda parte da peça, Winnie aparece já com terra até o pescoço, e seu diálogo se torna frenético, revelando toda angústia, solidão, tristeza e incerteza que guarda dentro de si. A alegoria de estar enterrada pode ser interpretada das mais inúmeras formas, o que torna a peça ainda mais interessante. A meu ver, ela está enterrada em uma vida solitária, sem alegrias, na qual o cotidiano tedioso e sem significado já se tornou um castigo angustiante. Tanto Winnie quanto Willie são infelizes e pensam em tirar a própria vida sem, no entanto, ter coragem para fazê-lo.
O texto original é muito difícil de ser encenado, sendo necessário um brilhante diretor como Brook para colocá-lo no palco. Brook fez uma revolução na forma convencional de dirigir, inspirando-se em métodos orientais e circenses e chamando para suas peças atores de diversas nacionalidades. “Ele não é racional, ele não leu todos os livros, mas ele é o mestre da intuição”, diz Wolfgang, elogiando a genialidade de Brook, que em 2000 trouxe para Porto Alegre a peça “Le costume”.
Pelos atores falarem alemão, é feita uma tradução simultânea, e as legendas aparecem em uma tela acima do palco. Este empecilho, que poderia impedir o espectador de se concentrar e envolver-se com a peça, é completamente sobrepujado pela exuberância dos diálogos, que em certas passagens soam como uma poesia. A atuação de ambos os atores é magnífica, impecável. O cenário é muito bem construído, tendo sido necessário fazer uma extensão no palco do Theatro de São Pedro para que coubesse, e a iluminação nos dá a real impressão de estarmos vendo o movimento do sol, do nascer ao poente.
Diferente de outras peças em cartaz, que contam com inúmeros cenários, e personagens, “Happy Days” se passa toda no local onde Winnie está enterrada, com apenas dois atores, sendo que um fala apenas quarenta e seis palavras durante as quase duas horas de peça. Ela foge à regra de dramaturgia clássica, ao estender o espaço de tempo por vários anos e ao ter o pensamento reflexivo como ação principal, sendo considerada uma peça teatral moderna, assim como “Hamlet”, de William Shakespeare.
É uma composição verdadeiramente brilhante, um marco para o teatro, e não se pode perder a oportunidade de assisti-la. É uma pena que peças deste calibre só venham para a nossa cidade uma vez ao ano e por tão poucos dias, mas vale a pena entrar na fila na Usina do Gasômetro para comprar ingressos.

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Por: Paulo Ricardo Kralik Angelini

Paris, Londres, Nova York, Berlim, Roma, Buenos Aires… Em qualquer cidade maiúscula do globo, haveria um séqüito de fãs de Peter Brook aglomerando-se para conferir a montagem do texto de Samuel Beckett, HAPPY DAYS. Essa noção da importância de um evento engrandece ainda mais a sua razão de ser, e era um pouco isso o que se sentia no Theatro São Pedro: a sensação de que cada espectador estava ocupando uma poltrona que seria disputadíssima em qualquer lugar do mundo. O que mostra, um pouco, a imensa dimensão desse espetáculo no Porto Alegre em cena.
No palco, uma espécie de toca de formiga gigantesca, com dois buracos por onde, sabia-se, ficariam enfiados os atores.
HAPPY DAYS conta a história de Winnie e Willie, personagens que, bem ao estilo beckettiano, mais observam do que agem. Winnie, interpretada pela excelente Miriam Goldschmidt (o que ela comunica do pescoço para cima muito ator global não consegue com o corpo inteiro), é quem conduz o texto, um quase monólogo sobre pequenas coisas no entorno: uma leitura difícil das letrinhas de um produto em forma de bisnaga, uma formiga que passeia pela terra, o sol que queima, uma sombrinha que incendeia. Pequenas coisas que revelam o macro sistema de Beckett: a incomunicabilidade, o não-pertencimento, a atemporalidade, a solidão, o medo, a imobilidade. Ou seja, temática pra lá de cabeça que renderia inúmeras teses filosóficas a respeito.
O que, de fato, surpreende é a força cômica-banal do texto, superando a questão trágica, que em geral acompanha as montagens beckettianas. Impossível não se encantar pela doçura de Winnie, que se comove com as poucas palavras de Willie – seu parceiro -, com o som da caixinha de música, com a força do sol e os pequenos movimentos ao seu redor. Goldschmidt segura, sozinha, a longa e, por vezes, cansativa jornada imóvel desses dois seres perdidos no mundo. No primeiro ato, ainda os braços a auxiliam, mas no segundo, enterrada até o pescoço, são seus olhos que tomam conta do palco.
Desnecessário dizer que a platéia ovacionou a pequena atriz alemã. HAPPY DAYS enquadra-se dentro daqueles eventos necessários, mesmo que dolorosos, emocionantes, mesmo que tediosos. É a legítima experiência, com a marca de Peter Brook.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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