Direção: Ítalo Rossi
Elenco: Joana Fomm, Marcello Escorel, Ester Jablonski, Guida Vianna
7 aviões mais 2 crianças barulhentas mais 12 pessoas com tosse grave 2 vezes Pinter. Essa não é uma equação matemática, mas sim reflexo de um domingo frio em Porto Alegre. O teatro Carmem Silva, no longínquo e mal-sinalizado DC Navegantes (alô, prefeito… placas já), estava cheio para assistir a Joana Fomm, atriz afastada há algum tempo da televisão (volta na novela das 7, Bangue Bangue) e dos palcos.
Ainda sobre a equação, pistas para a sua resolução: o teatro fica próximo ao aeroporto de Porto Alegre, com alternados rasantes de aviões que quase estremecem as estruturas metálicas da casa (por si só barulhenta, cadeiras rangendo, etc, etc, e muito fria, vento encanando sabe-se lá por onde); crianças foram levadas ao espetáculo – inapropriado… “mãe, falta muito?” – e, como de praxe, a tosse é realmente contagiosa: fazia tempo que não ouvia tanta gente tossindo em seqüência. O pior é que a peça requer silêncio, e a platéia porto-alegrense, ao menos na noite de domingo, assistindo a DUAS VEZES PINTER, falhou nesse quesito.
São dois textos de Harold Pinter em cena. O primeiro, Cinza às cinzas, mais pesado que o segundo, desenvolve uma das características básicas do autor, que é a suspensão do passado. O diálogo entre um homem e uma mulher – o texto obedece ao processo in media res, ou seja, inicia no meio – não traz, em princípio, nenhuma referência clara de quem são essas duas criaturas. Há um amante sendo citado, algumas crianças. Avançando no texto, descobrimos que é um casal que discute. Marcello Escorel e Ester Jablonski crescem em cena ao mesmo tempo em que seus personagens se revelam. Contudo, as inúmeras elipses acabam provocando a distração, o texto torna-se verborrágico, enfadonho, circular.
A segunda parte do espetáculo é mais irônica, menos densa, mesmo que não menos profunda. Uma espécie de Alaska traz uma mulher que desperta de quase trinta anos de sono. Essa bela adormecida trágica também teve seu passado suspenso: o tempo agora é outro, e ela não reconhece as pessoas que a cercam. Joana Fomm acerta na composição meio apalermada-adolescente de sua personagem, que adormeceu com 16 e acordou com quase 50. Na maior parte do tempo deitada numa cama, Fomm transforma sua Débora numa frágil e confusa criatura, com lampejos raivosos que divertem a platéia.
O apagamento da memória e a supressão do tempo são temas desenvolvidos por Pinter e levados à cena de forma competente por Ítalo Rossi. Mesmo que evidentemente desigual, DUAS VEZES PINTER é teatro de primeira, com boa atuação do elenco e um texto afiado e inteligente.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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