Direção: Victor Peralta e Beth Goulart
Elenco: Beth Goulart
Das cartas trocadas entre Nelson Rodrigues e Eleonor Bruno descobriu-se um grande amor, proibido e visceral, na década de 40, tal qual os que o grande cronista desenhava em suas fabulosas histórias. A atriz Beth Goulart, neta de Eleonor, deparou-se quase por acaso com tamanha paixão. Primeiro através de uma dedicatória cheia de amores no original de DOROTÉIA. Depois, quando encontrou as tais cartas apaixonadas. Beth viu que tinha em mãos um material rico.
A paixão do romance proibido reflete na proposta do monólogo. Beth Goulart entrega-se em cena, num desempenho repleto de vigor, fúria e delicadeza.
O cenário, composto por luzinhas a imitar velas, uma lamparina, um jarro, um banco no centro, representa bem a idéia de fazer do menos, mais. Beth surge em cena cantando The man I love, para seguir perguntando à platéia: Você já amou? Você já viveu um grande amor?.
A atriz, em excelente forma física, faz extraordinário uso de seu corpo. Beth interpreta uma mulher (Eleonor), um homem (Nelson) e a própria personagem Dorotéia. As nuances de sua interpretação, quando faz ela e quando faz ele, garantem a atenção da platéia.
DOROTÉIA MINHA é um texto difícil, com trechos das cartas que se repetem, em meio à escuridão, luz focada no expressivo rosto de Goulart, entremeado por canções antigas (defendidas com segurança pela atriz, muitas vezes à capela). Não linear, econômico, por vezes hipnotizante, monotonia jogada na cara, é o exercício de uma grande atriz, que parece relegada a papéis coadjuvantes na televisão mas que, no teatro, potencializa toda a sua força de atuação.
E, ao que parece, no final, a entusiasmada platéia mostrou que soube reconhecer o trabalho irretocável de Beth Goulart em DOROTÉIA MINHA. Nelson aprovaria.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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