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categoria: 2005

A ÚLTIMA VIAGEM DE BORGES

Direção: Sérgio Ferrara
Elenco: Luiz Damasceno, Flávia Pucci, Marco Antônio Pâmio, Olayr Coam, Rubens Caribé, Rodrigo Bolzan

A rica literatura do escritor argentino Jorge Luis Borges, seus personagens, suas temáticas deram material para o escritor Ignácio de Loyola Brandão construir o texto de A ÚLTIMA VIAGEM DE BORGES. A biblioteca de Babel, O outro, O livro de areia são algumas das referências mais óbvias num roteiro bastante cifrado, mistura de metáforas mágicas com aventura literária, se é que isso existe. Basicamente, a peça conta a busca de Borges pela palavra perfeita, por ele encontrada e depois perdida. A partir daí, ele convoca um menino para partirem em uma jornada. Para acompanhá-los, chama Richard Francis Burton, aventureiro e escritor que traduziu com sucesso As mil e uma noites, do qual sai a terceira parceira de viagem, a personagem Sherazade. Completa o quarteto, Funes, o memorioso, personagem do próprio Borges feito com a memória alheia.
Se Brandão acerta na temática mágica, que chega a lembrar os pops SENHOR DOS ANÉIS e HARRY POTTER com um teor um pouco mais comprometido, há algo na direção do competente Sérgio Ferrara (dos excelentes Abajur Lilás e Pobre super-homem) que não funciona. Há momentos por demais farsescos, quebrando a magia e o encantamento provocados por outras belas passagens. São tantas as referências que A ÚLTIMA VIAGEM DE BORGES torna-se, em certos momentos, verborrágica e por demais cifrada. Os não-iniciados em Borges podem perder as pistas literárias – espelhos, tigres, labirintos, desertos – e adentrar no campo do tédio.
Destaque para a cenografia: as projeções de imagens ao fundo do palco garantem um belo visual, e a utilização da areia no cenário que, como grandes tapetes mágicos, vai se transformando, deixando o palco com ares desérticos.
Do elenco, o premiado Luiz Damasceno (Prêmio Shell 2004 por O mercador de Veneza) confere vida a Borges. Os coadjuvantes estão bem, principalmente Olayr Coan (já indicado ao Shell por A confissão de Leontina e visto em Pobre super-homem, juntamente com Pâmio, o bibliotecário de A última viagem…), que faz um divertido Funes. O único problema é Flávia Pucci e sua Maria, muito carregada (a mesma faz a Sherazade um pouco melhor). A curiosidade fica por conta de Rodrigo Bolzan, visto no polêmico filme CAMA DE GATO. Em ambos, aparece bem à vontade, ou seja, nu.
A ÚLTIMA VIAGEM DE BORGES parece ser um espetáculo tão enigmático como sua proposta. Saí da sala do teatro com dúvidas sobre a real apreciação do que me foi apresentado. Em certos momentos, achava genial, em outros, uma bobagem com ares de requinte cultural. Talvez esta seja, realmente, uma das intenções: fazer pensar, e discutir. E isso a peça cumpre.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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