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categoria: 2003

POA EM CENA, UM BALANÇO

O Porto Alegre em Cena é uma excelente iniciativa da prefeitura, que há dez anos realiza um festival de teatro com preço de ingresso popular: 5 reais.
Nessa última edição, a marca é o experimentalismo. Espetáculos pouco comerciais, que talvez nunca conseguissem realizar uma turnê pelo país, abrem suas cortinas para deleite da platéia.
Algumas pessoas têm torcido o nariz, talvez pela ausência do teatrão. Esqueça aquelas histórias lineares, com início, meio e fim. Poucas são as que se encaixam nesse requisito, entre elas A BESTA NA LUA, com boas soluções cênicas e utilização de silêncios narrativos que acabam fugindo um pouco do convencional.
Agora, se você procurava novas linguagens cênicas, o Em Cena foi na medida.
Um espetáculo como o ÂNSIA, por exemplo, um texto visceral de Sarah Kane (com 28 anos se matou, dado biográfico que vale como referência na apreciação de suas palavras cruas e desacreditadas).
Quatro atores no palco berram seus discursos fragmentados quase ao mesmo tempo, numa alegoria perfeita à confusão sonora e histérica em que vivemos. A platéia percebe algum nexo tentando ligar os gritos de desespero com um ou outro personagem, numa espécie de análise combinatória. E sai do teatro tocada pela poesia esmagadora daquela guerra de palavras.
Outro espetáculo impactante é A PAIXÃO SEGUNDO G.H., belissimamente interpretado por Mariana Lima. O público segue a atormentada G.H. pela sua casa (salas e corredores do Hospital Psiquiátrico São Pedro), enfrentando um clima claustrofóbico entre claro-escuro.
O texto de Clarice Lispector flui em cena, em doses de ironia, dor e absurdo do cotidiano.
O absurdo também revelado na excelente interpretação de Renato Borghi (indicado ao Prêmio Shell), em TRÊS CIGARROS E A ÚLTIMA LASANHA.
Um homem e suas manias rotineiras interrompidas pela inusitada perda da mão. O texto de Fernando Bonassi e Victor Navas trabalha com as conseqüências de um fato sem explicação lógica, num encadeamento divertido de situações provocadas pelo implante da mão de um doador de órgãos.
Experimentação também em AMOR E RESTOS HUMANOS, seres presos numa gaiola de ferro às alturas, no texto do canadense Brad Fraser, já levado ao cinema, que fala sobre homossexualismo e perda de identidade.
CAFÉ COM QUEIJO é outra excelente mostra desse Porto Alegre Em Cena. Uma colcha de retalhos amarrada por causos e histórias de gente simples do interior brasileiro, interpretados com brilho pelo elenco que se divide entre relatos, dança, música e goles de cachaça. Tudo isso dividido com a platéia, sentada no chão junto dos atores, que interage, contando e cantando seus versinhos.
Os quadrinhos ganham a cena em PESSOAS INVISÍVEIS. Os traços de Will Eisner nas histórias desse espetáculo de ótimas críticas, considerado um dos dez melhores do ano passado e concorrente a várias categorias do prêmio Shell.
Também de vanguarda o difícil CÃO COISA E A COISA HOMEM, com Luís Mello, o poético francês UM ANGE PASSE PASSE, e o multimídia suíço LOLA LA LOCA.
O PARAÍSO PERDIDO estremeceu a catedral de Porto Alegre com suas cenas de impacto e texto desconstrutor.
GOTHAM SP provoca frisson com seu teatro do inconsciente e interpretação dos atores saídos de instituições de saúde mental. O confuso espanhol NI SOMBRA DE LO QUE FUIMOS gera mais nariz torto do que elogios e o fraco EMBAIXO DA CAMA, da Rússia, foi um dos campeões da desistência – bendito seja o intervalo, muitos disseram.
O Décimo Porto Alegre Em cena chegou ao seu final com uma seleção homogênea como poucas vezes se viu, com muito mais acertos do que erros, e com uma meia dúzia de espetáculos inesquecíveis.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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