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categoria: 2003

A PAIXÃO SEGUNDO G. H.

Rio de Janeiro

Direção: Enrique Diaz
Elenco: Mariana Lima

Eu preciso me esquecer”, diz G.H., no auge da sua crise. Ela é uma mulher solitária, escultora, que resolve entrar no quarto da empregada. Lá, surpreende-se com um ambiente novo, tornando-se obcecada por uma pintura na parede e por uma barata que surge no armário.
A opção de encenar o texto no Hospital Psiquiátrico São Pedro vem da necessidade de um ambiente amplo, com salas e corredores. Além, evidente, do estranhamento do espaço em si, espécie de cárcere dos limites entre lucidez e loucura.
Palco perfeito, portanto, para essa personagem magnífica criada por Clarice Lispector, que faz uma jornada de reconhecimento e esfacelamento, experimentando a desintegração de uma barata morta-viva que remete à sua própria desintegração.
O público, limitado a 70 pessoas (o que gerou confusão entre credenciados da imprensa num entra-não-entra), visita uma sala escura, claustrofóbica, repleta de livros. É o habitat de G.H., cigarros em punho e mãos trêmulas, que inicia seu monólogo de descobertas, até o dia em que abriu a porta do quarto da empregada. Nesse momento, ela abre as portas da sala, que dão para um corredor branco, absurdamente iluminado. O público a acompanha até a entrada ao quarto da empregada, ainda mais branco. Um quarto simples, com um varal, um roupeiro, uma escrivaninha, um abajur. Elementos de cena que se multiplicam graças às criativas alternativas da direção de Diaz.
São vários os destaques do espetáculo: a encenação que se desloca entre escuro-claro-escuro, o jogo de sombras, a projeção do abajur no rosto da atriz, a imagem projetada no roupeiro quando as portas se abrem. Cada mínimo detalhe dos cenários é aproveitado. Por vezes a atriz sai de cena e surge em ambientes inusitados, como no teto do quarto. Em outras, ela sai para entrar uma G.H. projetada nas paredes brancas.
Destaque também para a monumental atuação de Mariana Lima, que devora a personagem com uma força inacreditável. Seus rompantes de loucura, acalmados por um olhar nervoso, perdido, provam sua excelência de atuação. Ela grita, chora, rola, se bate, num exorcismo fantástico.
E, é claro, o belo texto de Lispector, bem adaptado por Fauzi Arap, é o que mais comove. As palavras transbordam a personagem em passagens tão poéticas que provocam calafrios. E como é bom ser atingido por um texto certeiro, que nos deixa absolutamente desestabilizados.
A PAIXÃO SEGUNDO G.H. foi um dos primeiros espetáculos a passar pelo 10° Poa Em Cena e, desde já, um dos melhores de todas as edições.
Uma jornada dolorosa – sonho e pesadelo – que nos marca até as entranhas.

COTAÇÃO: * * * * *

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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