São Paulo
Direção: Maria Thaís
Elenco: Beatriz Sayad, Ricardo Napoleão, Thomaz Jorge e Walter Breda
As molduras vazias que preenchem o palco dão a pista desta interessante montagem. Existe a matéria, falta a vida. Existe a moldura, faltam a foto, a história. Existe o carrinho de bebê, falta o filho.
Tocando com emoção nas ausências, o texto de Richard Kalinoski conta a história dos sobreviventes da Armênia na guerra contra a Turquia. Aram, homem que escapa do terror e vai para a América, subornando guardas com selos raros, e Seta, a menina órfã com quem Aram se casa antes de conhecê-la. A convivência entre eles traz as diferenças de um campo de batalha. Aram, fotógrafo, é introvertido, tradicional, conservador. Seta é alegre, gosta de cozinhar e de não obedecer seu marido.
Na casa, há um painel que desafia Seta: a família de Aram, assassinada pelos turcos, com espaços em branco no lugar das cabeças, a serem preenchidas com o tempo para a reconstrução da sua identidade. O conflito do casal se agrava com a possibilidade de esterilidade da mulher, depois aliviado com a chegada de Vincent, um menino de rua. O narrador que transita entre presente e passado também é uma boa sacada do texto.
A direção de Maria Thais acerta na simplicidade. É uma peça de ritmo lento, por vezes silencioso demais para um público acostumado a video-clip. O deslocamento das molduras pelo palco forma quadros fotográficos interessantes. A interpretação dos atores é correta, sem grandes rompantes, até porque a monotonia de se estar vivo no meio da lembrança de mortos exige essas poucas palavras.
Seta dá o colorido que falta à vida de Aram, e seus retratos finalmente ganham novos ângulos. E a peça cumpre bem o que se propõe, nesse estudo da solidão pós-guerra e da destruição de referências pessoais.
COTAÇÃO: * * *
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Espaço do Leitor
Por: Cristina Moreira
O que seria da história do homem se não fossem as imagens? Guerras, vitórias, emoções, criações, realizações, momentos fugazes que não seriam mais do que fragmentos passados de memória em memória, correndo o risco de serem alterados pelo caminho. Mas não com as imagens, não com as fotografias. As fotografias servem para o registro histórico dos fatos de todos e de cada um.
Quem mais se valeu desse artifício foram os imigrantes, que, forçados a deixar sua história para trás, podiam sempre levar consigo as fotografias das coisas, dos lugares, das pessoas que tiveram de abandonar.
Fui assistir à peça A Besta na Lua, de Richard Kalinoski, que está em cartaz no Theatro São Pedro, integrando o décimo Porto Alegre em Cena. Fui porque uma amiga me convidou, fui sem saber do que se tratava, fui porque sim. Antes de entrarmos ainda perguntei a ela se não era nenhuma dessas “intervenções artísticas pós-pós-modernas”, dessas coisas que as pessoas se movem de forma estranha e fazem barulhos estranhos. Ela riu mas me garantiu que não. Ufa, tudo bem então.
Nada contra o teatro moderno, as inovações, as experimentações, acho tudo isso muito necessário, criar novas realidades. Mas sempre prefiro de histórias bem contadas, com início-meio-e-fim, com algum significado, alguma mensagem maior.
E encontrei nessa hora e meia no Theatro São Pedro, uma história com pé e cabeça e corpo e emoção. Não vou ficar falando que o teatro é lindo, porque isso todo mundo sabe, então vou falar da peça. São quatro ótimos atores, cenário super simples, as palavras sendo muito mais importantes que roupas coloridas e grandes ambientações. O texto é de um americano descendente de armênios, e eu não sei até que ponto é com base na vida dele de verdade, mas a angústia, a aflição de quem é obrigado a sair do seu mundo e a enfrentar o desconhecido está lá.
E a fotografia, único legado que o personagem principal tem da sua origem, acaba sendo o quinto elemento da peça, que provoca, que instiga, que faz lembrar e por causa disso dói. Na peça, o Sr Tomasian é fotógrafo, e quer de qualquer forma preencher as lacunas da sua vida, da sua família que ficou na Armênia, por meio de imagens novas, uma nova família na América. Ele pensa que recortando o antigo e substituindo o novo a dor vai passar, mas se engana.
A fotografia ainda está lá, mesmo faltando pedaços. A família dele ainda está lá, mesmo que não esteja mais viva. Na sua tentativa absurda de criar seu passado de novo, ele esquece que não está mais lá, esquece do presente. A única maneira que ele encontra de fugir desses fantasmas é tirando uma outra foto, uma foto do tempo em que vive, não para substituir ou completar a outra, mas sim para dar a ela uma continuação.
Bom, a moral da história, pra mim, é ter certeza que teatro não precisa quebrar todos os paradigmas para ser bom. Basta ter as palavras certas e algum conteúdo, basta saber emocionar e fazer pensar. Que venha o que é novo sim, mas que permaneça o que é bom.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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