Ensina-me a viver é uma adaptação para o teatro de um grande sucesso do cinema nos anos 70, HAROLD & MAUDE, com direção de Hal Ashby, que contava com Ruth Gordon e Bud Cort nos papéis principais. A trama gira em torno de Harold, um rapaz reprimido, com fixação pela morte e tudo a ela relacionado, cujo passatempo, dentre os seus favoritos, é acompanhar funerais de pessoas desconhecidas. E é num desses funerais que ele conhece Maude, uma senhora de setenta e nove anos que, apesar da idade, possui características opostas às daquele jovem: humor e alegria pela vida. Maude possui toda uma bagagem de vida, e tenta passar para Harold, de apenas vinte anos, um pouco de sua experiência, contando-lhe suas estripulias vida afora. O garoto, no entanto, vive prejudicado pelo autoritarismo da mãe, que faz com que ele expresse sua rebeldia através de atos hilários de morbidez.
Digamos que a peça é uma comédia de humor negro com uma pitada de drama, mas, principalmente na montagem brasileira, é a comédia que dá o tom. O texto de Colin Higgins é estimulante, divertido e tocante. A montagem cerca-se de grande profissionais do teatro, destacando-se, de cara, a excelente direção e adaptação de João Falcão – um dos grandes novos nomes que vem surgindo; a bela e envolvente cenografia de Sergio Marimba, que nos remete todo tempo à morbidez: tudo se mostra em tons escuro e com saídas inteligentes como os panos que correm para todos os lados, às vezes refletindo imagens, e usando grandes sacadas nos momentos de encantamento, quando a peça muda de cara, tais como o balanço, o carrinho das invenções e os objetos de cena abstratos que remetem um tanto às divagações de Maude; um lindo figurino, de Kika Lopes, evidenciando bem o lado mórbido de Harold e o ingênuo e divertido de Maude; e iluminação e trilha sonora de grande qualidade.
Arlindo Lopes, que também é produtor e correu atrás da realização da montagem, é o dono do espetáculo, fazendo um personagem encantador, que sabe dosar humor negro e revolta e, aos poucos, ir mudando para a felicidade, paixão e alegria de estar vivo. A maravilhosa Glória Menezes, que vem da força do espetáculo Ricardo III – no qual arrebatava a platéia – faz um bonito trabalho, compondo uma Maude destrambelhada e encantadora, respaldada muito pelo figurino. A cena em que ela fuma um baseado, diga-se de passagem, é a mais divertida da peça, pois ver a grande atriz, de papéis sofisticados na televisão, em um momento assim, é algo delicioso. No entanto, ainda que um bonito trabalho, não é o seu melhor, porquanto, creio, a força da personagem se perca um pouco quando a tradução insiste em levar tudo para o lado cômico. Ilana Kaplan está nadando em mar seguro, e faz um bom trabalho na pele da mãe de Harold, bem como Augusto Madeira, que faz uma participação “ok”. Com vários personagens, a grande surpresa é para o grande trabalho a novata Fernanda de Freitas, que dá vida, com grande competência, a três completamente diferentes pretendentes do jovem protagonista. Especialmente na última (a atriz de teatro), Fernanda dá um show. Acho que surgirá aí uma grande atriz.
Em suma, a peça só não é melhor por causa da tradução, que, como já disse, me parece querer levar tudo pelo caminho mais fácil, oferecendo tudo mastigado à platéia.
Com um competente grupo de pessoas, esse espetáculo, que tem um quê de Família Adams no início e vai se transformando com uma aura mais mágica no decorrer, chega ao ápice com o amor do casal e acaba conquistando os espectadores… e rendendo boas gargalhadas. Nunca é demais assistirmos a coisas bem feitas. Um bonito trabalho, mas que está longe de entrar para o rol dos grandes espetáculos.
Cotação: Bom (***)
Fabio Morales -
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Fabio Morales
Comentários
Sem comentários para “ENSINA-ME A VIVER”
Deixe um comentário