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categoria: 2008

CHALAÇA, A PEÇA

São Paulo

Direção: Marcio Aurélio

Elenco: Carlos Canhameiro, Daniel Gonzalez, Jonas Golfeto, Letícia Moreira, Michele Navarro, Weber Fonseca e Tetembua Dandara

 

O Chalaça, livro de José Roberto Torero, já foi adaptado até para a televisão, dando origem à minissérie Nos quintos do Inferno. Para o teatro, a trupe Les Commediens Tropicales traz o texto de Torero de forma inventiva e original. O início do espetáculo é promissor. Os sete atores em movimento carregam cadeiras como se procurassem seu espaço no palco. Em seguida, cada um deles posiciona-se frente ao microfone e, simulando uma entrevista, despeja seu texto. São depoimentos adaptados da obra de Torero sobre personagens que circulavam em torno de D. Pedro, como a Marquesa de Santos (maravilhosa a atriz que a representa), a Imperatriz Leopoldina, Marquês de Barbacena, entre tantos outros que são apresentados e, por vezes citados, ganham corpo mais adiante no palco. Na verdade, todos esses personagens históricos estão relacionados com Francisco Gomes da Silva, o Chalaça, que apenas surge na peça composto pelos discursos alheios.

 

A encenação é decididamente criativa. Com ares de CPI, parece que estamos assistindo à TV Senado, TV Câmara, e por aí afora. Inclusive, há três monitores no palco. O problema é que o texto, quase picaresco, ganha ares um tanto ingênuos por conta de tanta brincadeira lingüística. Há momentos por demais “Casseta e Planeta”, joguinhos de palavras maliciosos que mais entediam do que divertem. Mas há outros realmente inspirados, especialmente quando os melhores atores surgem na hora do depoimento. E este é outro ponto fraco do espetáculo: o elenco não é coeso. É perceptível o timing maior para comédia e improvisações de parte do grupo. Dos sete, três ou quatro enchem os olhos da platéia.

 

De qualquer forma, é interessante perceber o quebra-cabeça histórico, muito mais voltado para os bastidores do Império, bem verdade, que aos poucos vai sendo montado. Depoimentos iniciais vão ganhando mais sentido quando são complementados por outros. A pausa para o cafezinho também é uma boa idéia, assim como a óbvia aproximação da podridão dos puxa-sacos que rodeavam os poderosos com os nossos dias de hoje.

 

E quando tudo começa a ficar um tanto repetitivo, há uma espécie de rompante. Cuspes, genitálias, bundas à mostra e outras situações bizarras surgem no palco. Silêncio na platéia. Contudo, toda a cena é tão ensaiada que o momento “vamos escandalizar” só surge grotesco mesmo, esvaziado. E aqui falo sem o menor moralismo ou puritanismo. Poderíamos fazer diversas associações metafóricas óbvias sobre tal escolha, mas a cena, a meu juízo, quase parece fazer parte de um outro espetáculo, e não daquele a que estávamos assistindo.

 

Depois deste certo constrangimento (nada que justificaria, porém, o desabafar de certas senhoras que saíram praguejando do teatro contra a “barbaridade e pouca vergonha” do que viram. Menos, madames, menos!) , o grupo traz mais alguns depoimentos, até o ótimo final, que ficcionaliza também o autor, Torero, que conversa com os personagens e com a platéia. E tudo termina como começa, numa rodinha das cadeiras, com os atores tirando peças das roupas e trocando-as entre si. Despojando-se de seus personagens.

 

Chalaça, a peça, tem perfil de espetáculo de Festival de Teatro. Quanto a isso, cumpre o seu papel com folgas, dando a polêmica necessária para tal. Contudo, tendo em vista os seus excelentes primeiros trinta minutos, confesso ter ficado com uma espécie de gostinho de decepção, no final das contas.

 

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Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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