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categoria: POA EM CENA 2011

A LUA VEM DA ÁSIA

>>> A LUA VEM DA ÁSIA (Rio de Janeiro)

Direção: Moacir Chaves

Com: Chico Diaz

 

Espetáculo assistido no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2011.

 

À noite a lua vem da Ásia, mas pode não vir, o que demonstra que nem tudo neste mundo é perfeito.

 

Uma obra em tom surrealista, de um autor pouco conhecido da literatura brasileira, foi adaptada e ganhou os palcos do Rio de Janeiro. A lua vem da Ásia (1956), de Campos de Carvalho, é um relato que mescla cartas, diários e outros apontamentos. No teatro do Centro Cultural do Banco do Brasil, o personagem-narrador ganhou a figura de Chico Diaz, (que também fez a adaptação), em seu primeiro monólogo e, sem dúvida, uma de suas mais impressionantes atuações.

 

O texto é uma grande alucinação dividida em duas partes: na primeira, um homem preso por pensar diferente tece devaneios sobre a liberdade e sobre outros assuntos nem sempre interligados. Neste ato, o ator encontra-se em um cubículo, cercado visualmente por uma tela, onde inclusive são projetadas imagens e os títulos dos quadros. Possui um ritmo lento, apoiado por uma iluminação fraca, mas que conta com a velocidade alucinada de pensamento de Diaz. O ator trabalha com a força da palavra, explicando a opressão e procurando um lirismo libertador.   

 

O grande pátio onde de manhã tomamos sol nem sempre tem sol, o que demonstra a incúria do governo e a irresponsabilidade daqueles a quem pagamos para que nos dêem sol, que não nos podem dar a liberdade.

 

Na segunda parte, este homem relata suas maravilhosas aventuras pelo mundo, trilhando rumos nem sempre óbvios, revelando descobertas sempre deliciosas.

 

Quando em 1934 atravessei sozinho o deserto de Iguidi, tendo por única companhia um casal de borboletas, ocorreu-me a aventura mais surpreendente que pode ocorrer a um homem vivo ou morto, e que procurarei resumir em três linhas. Foi o caso que um dia despertei transformado em mulher e, nessa qualidade, fui pouco depois recrutado para o harém do sultão de Marrocos, onde servi como pude durante um ano e 14 dias.

 

Chico Diaz conduz um carrinho de feira, e ao fundo é projetado um céu que vai modificando a sua tonalidade aos poucos. É neste ato que Diaz consegue de vez a cumplicidade da plateia, desfilando o texto de um modo visceral, orgânico, que impressiona qualquer um. O ator, e aqui é literal, entrega-se no palco, transborda-se, vai a um esgotamento físico. O texto é ácido, exige atenção plena da plateia, mas por vezes o ator interrompe o seu discurso e, em tom jocoso, pergunta se o público está acompanhando.

 

Com direção de Moacir Chaves e supervisão geral de Aderbal Freire-Filho, A lua vem da Ásia é um espetáculo desconcertante que certamente abocanhará muitos prêmios e aplausos em sua trajetória.  

 

Em outra oportunidade (caso me arranjem uma outra garrafa) voltarei ainda ao mesmo assunto, que pode parecer monótono a VV. Exas. mas que para nós é vital e direi mesmo único, que a morte do espírito é mil vezes mais trágica do que a morte do corpo, e que o homem privado da sua liberdade de pensar e de amar vale menos do que a sua sombra num muro – a menos que se trate naturalmente de um muro junto ao qual ele esteja sendo fuzilado, com os olhos bem abertos e a cabeça erguida.

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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