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categoria: CENA ABERTA

A FESTA DE ABIGAIU

Vencedora do 10º Festival da Cultura Inglesa, na categoria teatro adulto, A Festa de Abigaiu é uma deliciosa comédia, com texto do inglês Mike Leigh (diretor de filmes como SEGREDOS E MENTIRAS e VERA DRAKE), que tem, pela primeira vez, um trabalho seu montado por aqui, e vem ganhando a platéia paulistana.

Escrita em 1970, a peça enfoca o realismo social, ou seja, o dia a dia, os problemas, as frustrações e desejos, de cinco personagens que se encontram com o pretexto de conversar e se divertir. A partir daí, feridas são expostas, assim como hábitos politicamente incorretos e reações muitas vezes exageradas – diante dos outros e de uma platéia atenta. Recheada de humor negro, a obra diverte e nos faz rir de forma inteligente, sem apelar, em momento algum, para palavrões ou técnicas mais fáceis, tão comumente usadas para ganhar o público. Aliás, muitas vezes, é uma pausa, ou um silêncio, que fazem com que a platéia desande a rir.

Leigh nos introduz no cotidiano e nos costumes de um grupo de losers, que vivem em um condomínio onde está acontecendo a tal festa do título, num verdadeiro jogo de poder, uma competição para mostrar, a todo momento, quem é o melhor.

A direção da montagem brasileira é de Mauro Baptista Vedia, que usa de pausas e marcas muito bem colocadas, pois o próprio autor explica que cada personagem tem um tom exigido, o que se nota claramente na adaptação. A anfitriã Beverly, que vai para o lado da comédia e do cinismo, é interpretada pela fantástica Ester Laccava, que mais uma vez arrebenta em cena, principalmente se considerarmos que a intérprete vem de um gênero completamente diferente em seu trabalho anterior. Com uma personagem que está sempre preocupada com seus convidados, e sempre tentando se mostrar melhor, a atriz usa esse humor cínico com perfeição.

Eduardo Estrela, diz o diretor, seria o elo mais dramático, na pele de Lawrence, o marido e dono da casa, preocupado com o trabalho e sempre confrontado por sua mulher. Com uma interpretação recheada de silêncios e expressões, Estrela mostra-se, também, o elo mais fraco do elenco. Ângela, vivida por Ana Andreatta, já nos ganha quando diz a primeira sílaba. Uma personagem caricatural, com o lado infantil muito aguçado, que é constantemente humilhada pelo marido mas, ao mesmo tempo, consegue ser doce e gentil. Em suma, pode até se tratar de uma caricatura, sim, mas feita com maestria. Fernanda Couto é Susan, a vizinha mais intelectual, sofisticada e de fala mansa, interpretada com enorme talento pela atriz, que faz dos gestos e expressões a base da sua composição. Por fim, o bonachão Tony, defendido por Marcos Cesana, faz um tipo grosseiro e cansado de tudo a sua volta, recado que o ator dá conta sem muitas exigências.

Enfim, um elenco afinado, texto inteligente e boa direção, que estão cercados de outro bom grupo: o cenário, de uma casa classe média britânica, cheia de detalhes e objetos de cena, tudo muito útil à encenação, leva a assinatura de Álvaro Razuk; a trilha original, fantástica, quase como um sexto personagem, foi criada pelo próprio autor, e adaptada pelo diretor, e o figurino, bonito e de acordo com a época, feito por Maite Chasseraux.

Tantas qualidade fazem de A Festa de Abigaiu a zebra das peças da cidade, pois, chegando de cantinho, vem conquistando as platéias e já é considerada a terceira melhor peça em cartaz na capital paulista, segundo revista especializada. Texto inteligente para pessoas de bom gosto. O último por favor apague a luz!

Cotação: Muito Bom (****)
Serviço:
A festa de Abigaiu
De: Mile Leigh
Direção: Mauro Baptista Vedia
Com: Ester Laccava, Ana Andreatta, Eduardo Estrela, Fernanda Couto e Marcos Cesana

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