Habitación blanquísima del interior de la casa de Bernarda. Muros gruesos. Puertas en arco con cortinas de yute rematadas con madroños y volantes. Sillas de anea. Cuadros con paisajes inverosímiles de ninfas, o reyes de leyenda. Es verano. Un gran silencio umbroso se extiende por la escena. Al levantarse el telón está la escena sola. Se oyen doblar las campanas.
Um dos projetos vencedores do Fumproarte da Prefeitura de Porto Alegre em 2006, A CASA é um exemplo de dinheiro público muito bem investido. Com a direção teatral do experiente Decio Antunes, direção coreográfica da bailarina de flamenco Sílvia Canarim e direção musical de Felipe Azevedo, o espetáculo de Danza-Teatro Flamenca é baseado na obra A casa de Bernarda Alba, do poeta espanhol García Lorca.
Todos os silêncios que movem a casa onde moram Bernarda e suas cinco filhas, numa época de forte repressão na Espanha, são interrompidos pela força dos sapatos das bailarinas em cena. Bernarda declara um luto de oito anos forçado para a família. Cada uma delas, a seu modo, tenta sobreviver na clausura. Adela (Maria Albers, excelente), a mais jovem, transborda uma sensualidade reprimida, trancafiada na casa, sempre observada pela severa mãe e pelas outras irmãs.
A docilidade de Adela contrasta com o ritmo forte do flamenco, que surge de uma maneira muito bem dosada, com belas coreografias. Cada uma das filhas tem sua expressão transformada em dança, e todas são vigiadas pela autoritária mãe, interpretada com competência por Sílvia Canarim, com um pesado e belo figurino negro e uma bengala que também pontua a coreografia. Homogêneas, todas as bailarinas (Iandra Cattani, Daniele Zill, Rita Zanini, Jacqueline Ferreira) defendem muito bem suas personagens.
Outro destaque do espetáculo é a belíssima música, executada ao vivo, criada por Felipe Azevedo. Com percussão, violoncelo, guitarra flamenca, violão e a possante voz de Thaís Rosa, a trilha é também esqueleto do show, com brilhantes momentos que dialogam com o movimento das bailarinas.
En ocho años que dure el luto no ha de entrar en esta casa el viento de la calle. Haceros cuenta que hemos tapiado con ladrillos puertas y ventanas.
Decio Antunes consegue criar, a partir do próprio espaço onde o espetáculo é encenado – a casa onde fica a sede do Instituto dos Arquitetos do Brasil – uma forte tensão nos movimentos das bailarinas. Todo o ambiente compactua para tal, em especial o abre e fecha das pesadas janelas. Há outras ótimas idéias em cena, como as aberturas laterais, onde surgem sombras das bailarinas e do único personagem masculino da peça, Pepe (Adriano Ferreira), que auxilia ainda mais na desestabilização da família. Merecem comentários à parte dois belos momentos do espetáculo: aquele quando cruzes descem do alto com vestidos negros do luto e a bonita metáfora do novelo de lã vermelho em meio ao negro.
Ya no aguanto el horror de estos techos después de haber probado el sabor de su boca. Seré lo que él quiera que sea. Todo el pueblo contra mí, quemándome con sus dedos de lumbre, perseguida por las que dicen que son decentes, y me pondré delante de todos la corona de espinas que tienen las que son queridas de algún hombre casado.
Porém, é a descida ao inferno a maior das metáforas. A intensidade da peça, já se encaminhando ao seu final, explode quando o público é convidado a circular pelas entranhas da casa – as entranhas da própria família. A descida aos porões tem um peso maior, se pensarmos que aquele espaço também guarda a pesada memória da nossa própria ditadura militar, pois foi triste cenário do DOPs. Falar mais sobre todo este ato final é estragar as fortes surpresas que o espetáculo apresenta, mas vale sublinhar a intensidade de Sílvia nos últimos ecos de sua Bernarda atravessando a maior das dores.
É facilitada a tarefa de indicar um espetáculo em cartaz em Porto Alegre quando percebemos que o público sai tocado do mesmo. A força da repressão, ontem ou hoje, sempre traz a triste evidência das dores não gritadas, dos medos escondidos, das vontades reprimidas. A CASA consegue, sem palavras, dizer tudo e muito mais que isso. Uma bela opção para quem está cansado da mesmice cultural na capital dos gaúchos.
La muerte hay que mirarla cara a cara. ¡Silencio! ¡A callar he dicho! ¡Las lágrimas cuando estés sola! ¡Nos hundiremos todas en un mar de luto!
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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É a primeira vez que tenho notícias desse magnífico texto adaptado para dança.
Está em vias de se concretizar no Rio de Janeiro um projeto creografado pela mestra Lydia Costallat hoje com 91 anos exatamente sobre A casa de Bernarda Alba.Gostaria se possivel de ter o e-mail da coreógrafa Sílvia Canarim