Atrizes diversas vezes indicadas a importantes prêmios teatrais, como o Shell, Leona Cavalli e Juliana Galdino desfilaram recentemente nos palcos de Porto Alegre, mostrando ao público a exuberância de suas atuações.
Máscaras de penas penadas e Comunicação a uma academia são dois espetáculos que fogem do convencional, do teatrão. Dois monólogos densos, com resultados diferentes, mas que comungam pela entrega de duas atrizes das mais gabaritadas.
Em Máscaras, dirigido por Georgette Fadel, Leona expõe-se em cena duplamente. No palco e no texto, adaptação de Ana Monteiro de um capítulo do livro Caminho das pedras, reflexões de uma atriz, da própria Leona Cavalli. Dividido em duas partes, na primeira vemos uma atriz ensaiando, procurando encontrar o tom para suas personagens míticas: Diana, Apolo e Dionísio. Inegavelmente, a plateia deleita-se muito mais com a incrível versatilidade de Leona, que se transforma nessas figuras, diferentes entre elas, em segundos. Porém, há qualquer coisa que não deixa o público embarcar na história. Destaca-se o belo momento em que as máscaras iluminadas descem ao palco. Fim (falso) de espetáculo. A plateia aplaude, meio sem saber se é isso mesmo. Leona resmunga no palco e começa a segunda – e mais divertida – parte, essa sim, notadamente em diálogo com a plateia. A atriz, de forma espelhada, reclama de sua atuação, devolve a bola para o público, que novamente não sabe muito bem o que fazer. Termina o espetáculo e o que fica é a presença de Leona, inteira e sempre excelente.
Roberto Alvim, por sua vez, conseguiu construir sua própria academia dentro do Theatro São Pedro, quando o público – que de certo modo também faz parte do espetáculo – escuta a comunicação especial de um ex-macaco, humanizado, tentando mostrar aos acadêmicos (a plateia inteira em cima do palco, em cadeiras) que não houve falha no processo. A perfomance de Juliana Galdino, indicada ao Shell de melhor atriz por este papel é hipnótica. Tudo é impressionante: a exploração do movimento, a impostação vocal, a maquiagem sutil e ainda assim forte, que confere à academia-plateia a certeza de estar frente a um ex-primata. O texto de Kafka é inteligente e atual, trazendo para a cena o absurdo de forma dura: o animal humanizou-se de fato ou o homem que já é há muito um legítimo orangotango selvagem?
Contribuíram, ainda, para o impressionante espetáculo ter o resultado que teve a iluminação extraordinária, criando quadros, e a utilização de gravação do depoimento do homem-ex-macaco como eco e duplo dele próprio, em um efeito muito bem pensado. Tecnicamente perfeito, Comunicação a uma academia cativa pela força e, ao mesmo tempo, pela singeleza.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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