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categoria: TEATRO

A ARTE DE ESCUTAR

As pessoas têm, muitas vezes, uma carência absurda: a de serem ouvidos. Quantas vezes você já não foi abordado em filas ou consultório médico, teve uma conversação iniciada de forma despretensiosa para, em seguida, acabar ouvindo confidências e outras declarações, por vezes constrangedoras?

 

E quantas vezes não pensamos em contar algum acontecimento para amigos que não sabem escutar, apenas aguardam uma pausa para colocarem-se em nosso lugar e contarem eles próprios alguma experiência, a critério deles, muito mais interessante, divertida, relevante?

 

Escutar é uma arte, nos dias de hoje, e Carla Faour fez disso uma peça teatral. O texto, indicado a alguns prêmios importantes, como o Shell, possui momentos deliciosos.

 

São esquetes em que sempre alguém vem alugar os ouvidos da protagonista (Flávia Fafiães). No banco, uma senhora modernosa (Thaís Portinho) conta seu passado riponga em contraposição com a caretice da filha. Na noite de Natal, quando a personagem era ainda uma criança, o tio (Charles Paraventi) faz confissões para a sobrinha. Na mesma noite, a mulher do tio (Faour) também expõe as suas dores e frustrações. Na academia, uma mulher (Juliana Guimarães) comenta sobre o ex-marido e o atual amante. No metrô, um velhinho (Isaac Bardavid) conta uma antiga história da infância.

 

O ponto alto do espetáculo, dirigido por Henrique Tavares, é o divertido texto da mulher da academia, com uma atuação hilária de Guimarães, a falar como numa compulsão, e também o tocante relato do metrô, valorizado pela emocionante perfomance de Bardavid, uma das vozes mais conhecidas do público brasileiro (ele é dublador de personagens famosíssimos do nosso repertório, de Esqueleto – inimigo do He-Man – a Wolverine, e até o computador do carro da Supermáquina). Uma pena que, por problemas técnicos, não funcionou muito bem, no dia da estréia no Theatro São Pedro, o projetor que mostrava imagens do subterrâneo. Por vezes, a marca d’água do equipamento, nos momentos de pausa, era projetada e repousava no rosto dos atores, por conta da redução de iluminação, provocando um anticlímax. Portinho e Paraventi seguram bem seus personagens, mas o texto possui altos e baixos. Curiosamente, Faour, a autora, dedica para si mesma o mais fraco dos textos, repleto de clichês que não condizem com o restante da encenação. Na verdade, a plateia manteve-se muda nesta esquete, o que se revelou um pouco constrangedor. Também a atuação de Carla segue a linha da mulher fogosa, insatisfeita sexualmente, que quer provar ainda estar ‘viva’.

 

Cenário simples, com alguns elementos básicos que se alternam em cada esquete – um pinheirinho de Natal iluminado, cadeiras que simulam um vestiário, barras para fazer de conta que estamos em um vagão de metrô –, talvez o maior problema do espetáculo seja a narração em off, muitas vezes explicativa por demais. A personagem que escuta também fala com a plateia, em pequenos monólogos, portanto o seu “pensamento” poderia ser substituído por esta comunicação direta com o público.

 

De qualquer modo, A arte de escutar é um montagem despretensiosa e bastante satisfatória, especialmente pela belíssima ideia de valorizar essas pessoas do nosso dia a dia que têm a duríssima tarefa de escutar o outro. Não por acaso, o texto tem sido traduzido e levado a outros palcos, como o canadense.    

 

 

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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