São várias as formas de observarmos a passagem do tempo. Talvez a mais óbvia seja passar o olho pelo calendário. Mas esta é uma maneira que não dá a amplitude necessária para sentirmos que o tempo, de fato, passou. Ou melhor, voou.
Um dos modos mais eficientes é ir a um show de alguma banda de rock dos anos 80-90. Isso porque toda a vez em que vamos a um evento de rock, pensamos em um público jovem e barulhento. No concerto do Simple Minds, no último domingo em Porto Alegre, tal fato não aconteceu.
Para quem não se lembra muito bem do Simple Minds, que de fato sempre foi uma banda de coadjuvantes frente ao megassucesso de U2, New Order, Depeche Mode, Pet Shop Boys, The Cure, The Smiths, OMD, Duran Duran, Art of Noise e outros construtores de hits, basta lembrar-se dos filmes queridos dos anos 80, tipo THE BREAKFAST CLUB (o CLUBE DOS CINCO, lembra?) Foi nesta película que eles estouraram, com o sucesso “Don’t you (forget about me)”.
Mais tarde, no inicinho da década de 90, o grupo apostou no engajamento, fez trabalhos com Peter Gabriel, e lançou um disco elogiado, que tinha outro hit: “Mandela day”.
Foi atrás destes hits, e também do “Alive and kickin”, que uma galera predominantemente na faixa dos 50, aliás, a faixa-etária da banda, foi ao teatro assistir aos escoceses. Verdade seja dita: não faltou animação no palco. Jim Kerr, o emblemático vocalista, muito se esforçou para levantar aquela plateia, digamos, mais pesadinha do que as bandas geralmente encontram, quando há a predominância da gurizada. Mel Gaynor, o baterista, e o guitarrista Charles Burchill, também da formação original, provaram que continuam muito bons, por vezes até abafando a voz do cantor. Mas enfim, aquela geração que tinha 25, 30 nos anos 80 se divertiu a sua maneira: se na pista a descontração era de se surpreender, na plateia o recato era constrangedor. Nem na hora dos grandes sucessos o povo se dignou a dar uma levantada. No máximo, mexiam a cabecita no ritmo. Quer coisa mais broxante para uma banda tentando animar a galera? Talvez tenha sido por isso que Kerr, a certa altura, desistiu da plateia e se concentrou na pista.
Que imagens será que aquelas pessoas traziam na sua memória depois de tanto tempo? Quantos amores vieram, e se foram? Quantos sonhos foram deixados para trás? Não podia deixar de pensar nisso enquanto via aquela geração, quase vinte anos além da minha, balançando junto com a banda.
A promessa de um show de duas horas não se confirmou. Tampouco a execução de muitos sucessos dos 80, 90. Simple Minds tocou muitas novas, que mais parecem genéricas, porque sempre encontramos uma batida, um refrãozinho que nos lembra antigos sucessos. E daí se faz a grande constatação: por que um U2, uma Madonna, um Depeche Mode, e até uma Cindy Lauper conseguem trazer adolescentes e vintões e trintões à plateia? Por que souberam se renovar?
Enfim, isso não foi um problema para cinquentinhas cheias de botox, vestidas como garotinhas de 21. Nem dos tios da Sukita, com seu jeans, all star e moleton amarrado à cintura, mas que exibiam no rosto as linhas das suas cinco, até seis décadas. Mas quer saber? Mais do que uma imagem estranha, talvez tenha sido justamente esse o maior mérito do show: perceber que o tempo até pode passar, mas que no coração daquele pessoal, a juventude é muito fácil de alcançar. Está logo ali, ao toque de uma música.
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Argumento.net: veículo credenciado pela Opus para o show do Simple Minds
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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