Uma cortina diminuía o palco do Teatro Bourbon Country. Já aí uma decisão que vai na contramão de um show com uma diva pop. Sim, Cyndi Lauper pode não vender tanto disco como a Madonna, nem nunca foi sexy e gostosona como a Britney Spears, mas definitivamente ela teve seu espaço nos anos 80, e ainda o tem.
O palco com dimensões menores contraria essa espécie de lei de mega-espetáculo, a saber: telões enormes de última geração, dúzias de bailarinos seminus destilando sensualidade, figurinos assinados por figurões da Haute Couture, cenário astronômico e afins. Não, Cyndi Lauper fez seu showzinho num teatro. Contudo, o diminutivo aqui não traduz a empolgação da platéia nem a competência da artista em seu mise en scène. Debochada, gorduchinha, simpática. Cyndi Lauper sobe no palco e a galera já delira – adolescentes e cinqüentões dividindo o espaço com democracia. Assimétrica, parecia a figura mitológica de Jano, que possuía duas caras: à direita, Cyndi possui cabelo curtinho, picado. À esquerda, o loiro mega-hair passa os ombros. Mas a duplicidade, aqui, não tem o menor valor simbólico, ainda que a cantora transite com sobras entre o pop dançante e o pop baladinha.
Cyndi apresentou músicas novas, o que mostra que não vive apenas dos seus (tantos e enormes) sucessos. Cantou a ótima “Set Your Heart”, e também “Into the Nightlife”, “Rocking Chair”. Mas o destaque, entre as novas, é uma entorpecente “Echo”, muito anos 80, mas também com uma batida muito moderna, mezzo trance, mezzo dance, troppo pop. Aliás, seu novo disco Bring ya to the brink é surpreendentemente muito bom, pena que ela não cantou a ótima “Can’t breathe”. O legal é que ninguém desanimou com as músicas pouco conhecidas. Certo que a cantora, uma menininha de 55 anos, fazendo vozinhas de criança e piadinhas com a platéia, não deixou, em nenhum momento, o clima esmorecer. Até porque havia uma multidão na pista, berrando EO EO EO EO CYNDI, transformando o palco do Bourbon num estádio de futebol. Cyndi descia à pista, perguntava se estava todo mundo bem, dava conselhos aos “kids”, lia cartazes e falava certas palavras em um português sofrível.
Porém, foi no desfile de hits que a platéia realmente explodiu. O primeiro foi “When you were mine”, que também ficou conhecido na voz de seu compositor, ninguém menos que Prince. Mas foi “I Drove All Night”, uma versão quase acústica de “She Bop” e a clássica “Money Changes Everything”, quando Cyndi e sua backing vocal duelam no vozerão, que conquistaram de vez a platéia. Porém, o povo queria mais, e gritava: Goonies, Goonies. E Cyndi atendeu com “Goonies are good enough”, música que ela quase nunca canta em shows, mas que abriu uma exceção no Brasil.
A festa foi completa, em uníssono, quando Cindy, ainda antes do bis, cantou seu maior sucesso: “Girls Just Wanna Have Fun”. Os momentos baladinhas levantaram gritos da platéia feminina: “True Colors” “All Through the Night” e a belíssima “Time After Time”. Teve gente que dizia: “Dançava esta nas reuniões dançantes”.
Pois é. O Teatro Bourbon Country teve um ar de casa de praia, de festinha de amigos do colégio, de diversão (that’s all they really want. Some fun when the working day is gone). As músicas de Cyndi Lauper marcaram época, representam momentos marcantes para todos nós, que adoramos os anos 80. Por isso a sensação de proximidade com a cantora.
Com uma banda de primeiro nível, quem mais se divertiu foi Cyndi, que mostrou ter uma voz poderosa, não poupando solos intermináveis. Num ano em que muitos e bons shows internacionais vieram ao Brasil – Macy Gray, R.E.M., Madonna –, Cyndi Lauper não foi mera coadjuvante.
Argumento.net assistiu a Cyndi Lauper a convite de Opus Promoções.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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