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categoria: 2009

OS DESTINOS DE MÍSIA

PORTUGAL

Com: Mísia, Adriana Calcanhoto, Bernardo Couto (guitarra portuguesa), João Bengala (viola de fado), Daniel Pinto (baixo), Luis Cunha (violino), Geoffrey Burton (guitarra elétrica)

 

“Isso é já uma jam session”, disse a cantora portuguesa Mísia, um bocadinho antes do segundo bis, no lotado Theatro São Pedro (“vocês têm um lindo teatro, um teatro com H, que bonito!”), na sua apresentação única Ruas, alusiva ao último cd. É que já estávamos nos aproximando da meia-noite, e o concerto havia começado às nove. Sintonia absoluta entre plateia e palco: a própria cantora admitiu que seus músicos sugeriram um segundo bis, visto que finalizar a apresentação com “Lágrima”, de Amália Rodrigues, seria muito triste. “Se eu soubesse que morrendo/ Tu me havias de chorar/ Por uma lágrima tua/ Que alegria me deixaria matar”, diz Amália. “Não sigam este exemplo”, complementa Mísia. Enfim, a cantora e seu grupo terminaram a noite com um fado menos triste. E todos saíram do teatro satisfeitos. O único artista que participou do show e não se despediu do público foi Adriana Calcanhoto, a nota desafinada da noite, em uma participação especial decepcionante. Assim terminou Ruas.

 

Assim começou Ruas. Uma cantora de fado, na imaginação de muitos, é um ser circunspeto, calado, sofrido. Não Mísia. As dores daquilo que canta, definitivamente, parecem passar longe da persona que ela cria no palco. E ela diz, em uma alusão a si própria, mas falando de Dalida, “Desconfiem das mulheres frívolas”. Surge uma mulher com um ar de anos 60, bastante maquiada, revelando um figurino entre o ingênuo e o roqueiro. E o melhor de tudo: entra em cena uma artista preocupada em dividir com a audiência os seus passos na escolha do repertório da noite. Essa atenção, unida a um inegável carisma, proporcionam deliciosas notas dos “bastidores” do espetáculo. A simpatia de Mísia encanta. Fala sobre Portugal, sobre a música, sobre a arte. Conta ser filha de mãe espanhola, por isso tem esse lado mais extrovertido. Vivendo há alguns anos em Paris, disse Mísia escutar o som de gaivotas à noite. Seus amigos diagnosticaram: tens Lisboa na cabeça.

 

E é uma Lisboa “de olhos fincados no rio” que Mísia apresenta em Porto Alegre.

Acompanhada por guitarras e violas portuguesas, baixo e por um violino, a artista oferece, na primeira parte do show, Lisboarium, assim como o primeiro de seu cd duplo, fados. Recupera obras consagradas (Amália Rodrigues), exibe canções compostas por escritoras portuguesas: Agustina Bessa-Luís (“Garra dos sentidos”: não quero cantar amores/ amores são passos perdidos) e Rosa Lobato Faria (a excelente “Conjugar Lisboa”, uma brincadeira com os bairros da cidade: “bato sonhos em castelo no desterro do cansaço, com pontinhas de cabelo no terreiro aonde passo”). Relê um Fernando Pessoa óbvio, em ‘Autopsicografia’ (“O poeta é um fingidor”, e a plateia lança um ah, essa eu conheço). Como parte do número musical, o violinista veste-se a la Pessoa. Mísia comenta sobre as malfadadas estátuas de Fernando Pessoa na capital portuguesa: “era um ser solitário, avesso a multidões. Era triste por não conseguir ser triste. E colocaram o pobre do Fernando Pessoa na frente do café; todos a tirarem fotos, no meio da multidão”.

Espirituosa, sarcástica, inteligente, ela arranca gargalhadas da plateia. Quem diria: este não era um show de fado?

 

A voz de Mísia ecoa soberana na excelente acústica do São Pedro. Grave, imponente, como pede o fado. Eis que a cantora chama sua amiga, Adriana Calcanhoto. A doçura da voz da artista brasileira é quase uma gotinha respingando na força do mar português de Mísia. O resultado é óbvio: Adriana some ao lado da portuguesa. E é, inclusive, visível o seu constrangimento, pois, em sua primeira entrada, Calcanhoto não diz um “oi” para a plateia. Juntas cantam “O corvo”. Porém, o Portugal nostálgico não vive apenas de fados, há também espaço para as tradicionais marchinhas. E uma Mísia a caráter finaliza a primeira parte.

 

Intervalo. 

 

Já na segunda parte, Tourists, a cantora surge vestida como uma: máquina fotográfica pendurada no pescoço, mala com rodinhas e gabardine. Este segundo momento é dedicado a artistas que viveram no “fio da navalha”, fadistas de outras ruas, de outras culturas. E assim, com a chegada de Geoffrey Burton, guitarrista que toca com Iggy Pop, surgem Ian Curtis com o clássico do rock do Joy Division “Love Will Tear Us Apart”, Nine Inch Nails, Dalida (uma interpretação visceral de “Pour ne pas vivre Seul”), Camaron de la Isla (quando se diverte comentando que subornou seus músicos portugueses a dedilharem a melodia flamenca de “Como el agua”), o napolitano Tito Schipa (“Era de Maggio”), Cuco Sanchez (no melhor momento da segunda parte, quando transforma “Fallaste Corazon” num ritmo “meio Almodóvar”) e até uma canção japonesa “aishuh hatoba”.

 

A plateia estranha a segunda metade do espetáculo. Estava lá para ver e ouvir Portugal. E nada daquelas guitarras distorcidas. Ainda que nem sempre funcione, essa faceta de Mísia revela coragem, uma cantora antenada com a modernidade e excelentes relações com outros artistas.

Ela chama outra vez Calcanhoto, que blasé como nunca solta uma enfadonha canção provençal (?) a capela. Mesmo os fãs de Calcanhoto (me incluo) hão de concordar que a cantora não disse a que veio nessa participação. Era embaraçoso observar Mísia quase que empurrando Adriana com o olhar para ir ao microfone e conversar com o seu “povo”. Mas quem conhece Calcanhoto, sabe da timidez e/ou falta de vontade de grandes monólogos. Contou que Mísia adora bolinho de bacalhau, e só. Partiu.

 

Mísia ficou. Ficou na memória de quem presenciou um grande show de uma artista pouquíssimo conhecida no Brasil. Pena que a cantora não se lembrou do pré-divulgado Chico Buarque, e nada de brasileiro foi cantado entre os “malditos”. De qualquer maneira, o Porto Alegre em Cena ganhou mais uma diva.

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “OS DESTINOS DE MÍSIA”

  1. Oi, Paulo
    Estava no teatro e, como tu, me deliciei com o show da Misia. Tentei te chamar no intervalo (estava por cima de tua cabeça, no camarote central), mas não me ouviste. Concordo com teu comentário.

    Um beijo grande e saudoso

    Clarinha

    Posted by Paulo Ricardo Kralik Angelini | September 18, 2009, 17:37

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