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categoria: 2008

POA EM CENA – ADRIANA CALCANHOTO

Disse a crítica local porto-alegrense que Adriana Calcanhoto entrou nervosa na noite de estréia de seu show Maré, divulgação do último CD, sexta, 19 de setembro, no Porto Alegre em Cena. Talvez estivesse, mas isso nunca saberemos. É claro que tal afirmação dá uma certa importância bairrista à nossa cidade, como se o fato de a cantora aqui ter nascido fizesse total diferença na hora de entrar no palco. Considero a Adriana Calcanhoto uma artista que está, há anos, acima dessas miudezas. Lembro-me de comentários: Ih, ela ta chiando como carioca..,. Cadê o sotaque?, logo que ela daqui saiu – pra nunca mais voltar. E como teve gente que torceu para ele enfiar o rabinho por entre as pernas e retornar a seus showzinhos no Porto de Elis e etc.

 

Essa história todo mundo conhece. Assim como quem já presenciou Adriana Calcanhoto em alguns shows percebe uma certa displicência da artista para com a platéia. Não me entendam mal, não acho que Calcanhoto seja rude ou esnobe quando está no palco. Apenas acho que ela vive sua melhor personagem: a de artista entre o envergonhado e o blasé.

 

Particularmente, me divirto com uma espécie de falta de jeito da cantora em se comunicar – falando – com a platéia. Falando, porque cantando, Adriana não precisa mais provar nada. Ela consegue total atenção do público, que se delicia com sua voz doce (ainda que os graves tenham ficado em Pelotas, como ela mesma disse). Sua presença tímida engrandece-se ao longo do show.

 

O belo cenário traz imagens marinhas, como uma gigantesca concha no palco, embora algumas figuras do pano de fundo sejam um tanto óbvias. É todo azul, como era de se esperar, mas isso cria efeito interessante quando a cantora surge com tons avermelhados. E o show flui. Adriana desfila sucessos, como Devolva-me e Esquadros, juntamente com as novas músicas, incluindo as já radiofônicas Porto Alegre, Mulher sem razão e Três. Apresenta um novo arranjo para a belíssima Vambora, que ganha ares de sambinha melancólico. Traz Meu mundo e nada mais, de Guilherme Arantes (regravação que nasceu em Portugal, quando, segundo a cantora, teve quase um surto psicótico por conta de remédios para gripe), em um arranjo simplesinho demais, contando apenas com o teclado burocrático de Bruno Medina, ex- Los Hermanos). Enfim, todo o show é bem amarrado, e há, para os que fazem questão disso, momentos em que ela se solta e conversa com a platéia, como quando relata a engraçada história da criação da música Vai saber?, gravada por Marisa Monte em seu último trabalho.

 

Contando com uma ótima banda, com destaque para a percussão de Domenico Lancelotti e Marcelo Costa, Adriana Calcanhoto vale-se da troca de instrumentos para, talvez, esconder-se ainda mais do conversê com a platéia. Troca de violão, pega o violoncelo (arranha, na verdade), a cuíca… Valorizando a sua versatilidade de instrumentista, é mesmo com a voz que Adriana conquista e encanta.    

 

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Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao PORTO ALEGRE EM CENA 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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