Em 6 anos, Maré é o primeiro álbum de Adriana Calcanhotto com músicas inéditas, desde Cantada (de 2002). Nesse meio tempo, a cantora gaúcha-radicada-no-Rio compôs músicas novas, participou de outros projetos e se divertiu bastante com seu trabalho infantil Adriana Partimpim, lançado em 2004. O hiato foi tempo mais que suficiente para moldar um trabalho enxuto e, ao mesmo tempo, requintado: são 34 minutos em 11 faixas, com uma amostra do que há de novo e clássico na MPB. Atacando na produção, na execução e em boa parte das composições, Adriana traz um repertório discreto e de sonoridade quase acústica. É um álbum suave, para se apreciar, como o próprio vai-e-vem da maré em um fim de tarde…
Sob um ponto de vista poético, as letras estão direcionadas para um lado mais introspectivo e contemplativo, no qual a natureza se faz personagem em algumas faixas e, tanto o romantismo quanto a dor de cotovelo ficam em segundo plano. O primeiro single de trabalho é “Mulher Sem Razão”, composição de Cazuza, Dé Palmeira e Bebel Gilberto – uma canção inspiradíssima e de apelo radiofônico que tem tudo para estourar como o primeiro sucesso do disco (Ao cair da tarde / Ouve aquela canção / Que não toca no rádio). Ainda entre os ícones oitentistas, Adriana resgata “Três”, composição de Marina Lima e Antônio Cícero.
Adriana faz bonito na composição com Moreno Veloso na faixa-título, um flerte à bossa-nova. Segue na parceria com Dé Palmeira na ótima “Seu Pensamento” e com Arnaldo Antunes em “Para Lá”. A cantora ainda homenageia o poeta Waly Salomão, dedicando o trabalho a ele e incluindo a última parceria dos dois, “Teu Nome Mais Secreto”, faixa que contou com a participação de Jards Macalé, o maior parceiro musical de Waly, pilotando o violão.
Outra bela canção é “Porto Alegre (Nos Braços De Calipso)”, canção de Péricles Cavalcanti que conta com a participação mais que especial de Marisa Monte, fazendo as vezes de sereia na faixa mais alegre do álbum. Educada na velha escola da MPB, Adriana homenageia seus mestres e conclui o álbum com “Onde Andarás” (Caetano Veloso/ Ferreira Goulart) e “Sargaço Mar” (Dorival Caymmi), a segunda com direito aos violões do ministro Gilberto Gil.
Em um balanço geral, Maré é um álbum com a marca de Adriana Calcanhotto e tem todos os elementos costumeiros de seu trabalho: a cantora acredita que em time que está ganhando não se mexe – e está coberta de razão. A opção por alternar músicas suas com as de outros compositores, mesclar inéditas e regravações e incluir grandes nomes nas composições e nas gravações faz do álbum um bom trabalho do que se chama “nova geração da MPB”: rótulo do qual Adriana é um dos expoentes maiores na atualidade, graças ao seu bom gosto musical e sua delicada, porém talentosa, voz.
Mauricio Costa - É freak de computador, se aventura como DJ e é fã de cinema, séries e música, sobretudo a brasileira.
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