Pode chegar que a festa vai é começar agora/ E é pra chegar quem quiser, deixe a tristeza pra lá
Talvez tenha sido a maternidade que tenha transformado Maria Rita. E que transformação incrível! Porto Alegre assistiu a uma artista em pleno vigor de sua carreira, com total domínio do palco e da platéia.
Em suas primeiras apresentações, referentes a cds anteriores, Maria Rita era o contraste do vozeirão do microfone com a menininha no palco. Encabulada, poucos movimentos, MR era toda pequenina, meiga, queridinha. Parecia se esconder por trás daqueles óculos pesados de aro preto, das roupas soltas e largas, num estilo meio riponga. Faltava qualquer coisa no show, apesar da inegável catártica relação que ela tem (sempre teve) com a platéia gaúcha. Em shows anteriores, presenciei pessoas a chorar copiosamente, quando a voz doce de MR conversava com a platéia e fazia qualquer referência a Elis. Sem dúvida, Porto Alegre definitivamente assume-se numa relação sangüínea com a maior cantora de todos os tempos e, por conseqüência, com sua filha. Portanto, a terra de Elis é a terra de MR. Coisa de gaúcho, todos sabemos o amor que esse povo tem às coisas que saíram daqui, ainda que, nesse caso, de modo indireto. Há qualquer coisa de adoção entre platéia-Maria Rita, como se ambos se consolassem mutuamente pela perda precoce do maior ídolo musical e da mãe.
Pois Maria Rita chutou a bola para frente, depois de encontros seguidos com todos os fantasmas possíveis. A nova Maria Rita combina muito mais com a sua voz. É grande no palco. Muito mais bonita: mais magra, cabelos compridos aloirados, barriguinha à mostra, MR está perceptivelmente segura de si. Mulherou-se. Transita com uma sensualidade divertida nunca-dantes-imaginada frente a músicos competentíssimos. O resultado não poderia ser outro: seu show Samba Meu é delicioso. A começar pelo repertório, com sucessos antigos e quase todos os sambinhas do último e excelente trabalho. Abrem-se as cortinas e MR já está no palco e, à capela, canta Samba Meu. De cara, ovacionada. Em seguida, vêm O Homem Falou, de Gonzaguinha, e o sucesso radiofônico e tema de novela Tá Perdoado. A platéia gaúcha começa a se animar e MR avisa: Daqui a pouco ta todo mundo de pé, referindo-se ao estranhamento ao ver todos sentados, ainda que balançando o pezinho. Traz outras canções, já algumas do primeiro disco, como Veja Bem, Meu Bem, e solta a ótima Cria, quando se emociona e trava. Ovacionada.
Quando conversa, Maria Rita está nitidamente mais solta, ainda que essa faceta sexy provoque muito mais atrevimento por parte da platéia. Linda, Gostosa, Casa comigo são a todo momento berrados. E MR ri, mexe no cabelo, debochada, bota a mão na cintura. Outra vez, inevitável, fala sobre o que significa cantar no Rio Grande do Sul. Diz que uma vez um amigo seu, antes de pisar pela primeira vez em terras gaúchas, alertou: Tudo o que você está sentindo será muito mais intenso em Porto Alegre. Porque lá é assim: se eles gostarem de você, eles te amam; e se não gostarem, te odeiam. Aproveitando a deixa, dezenas berram te amo. E Maria Rita sabe disso. Em muitos shows a gente percebe a afinidade e o carinho da platéia porto-alegrense como artista do palco, mas nos shows de MR há qualquer coisa esotérica no ar, quase inexplicável, e absolutamente justificável.
Corta. O belo cenário com um painel gigantesco, sempre sendo completado por imagens via telão, sofre uma mudança drástica logo depois de Muito Pouco. Sai o colorido da primeira parte e entra um painel negro, todo trabalhado de modo folclórico. É o momento mais intimista, e MR emenda Menininha do Portão, Encontros & Despedidas, Caminho das Águas, Santa Chuva, A Festa. Nesta fase do show, destaque absoluto para Encontros & Despedidas e a belíssima Santa Chuva, quando duas Marias Ritas dialogam no palco, numa ótima sacada para cada parte da música, uma mais lenta, outra mais agressiva, com MR trocando de lugar e apontando para sua “outra”.
Pra manter esse corpitcho bacana/ Acho até que vou virar marombeira/ Corro o calçadão de Copacabana/ De segunda a sexta-feira
Outra mudança de cenário, desta vez mais floral, e MR troca de roupa e volta com um vestido brilhante verde. Pede para todos se levantarem, e já nem era preciso, pois boa parte do teatro já estava por se levantar. Samba, dança, ri, se diverte, desfilando outros novos sucessos, como Corpitcho (na qual desfila, a brincar com sua nova silhueta) e Casa de Noca, além de quase clássicas como Cara Valente e Conta Outra.
A essas alturas, o teatro já era uma alegria só; todos comandados pelo carisma de uma artista que conseguiu livrar-se de comparações e aparecer completa no palco. Maria Rita é jovem e tem um belo caminho pela frente. O público, felicíssimo após o pequeno bis, na hora da saída, era todo alegria, e comentava, qual parente próximo, sobre a maravilhosa noite proporcionada pela nossa menininha – que cresceu…
É cria, criatura e criador/ Cuida de quem me cuidou/ Pega na minha mão e guia…
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Comentários
Sem comentários para “MARIA RITA”
Deixe um comentário