Em síntese, Girl Power é a força feminina, é o poder que cada mulher tem de conquistar seu espaço no mundo e viver a vida. O termo se popularizou no meio da década de 90, quando um grupo de 5 cantoras inglesas, conhecido como Spice Girls, invadiu as paradas de sucesso, vendeu milhões de cópias de discos, lotou shows, virou febre mundial, amargou a saída de uma integrante, se equilibrou por algum tempo e teve um fim precoce, somando uma carreira meteórica que durou pouco mais de 5 anos e construiu um império de números e recordes. As carreiras individuais das meninas obtiveram um certo êxito, sobretudo na Europa, mas nada comparado à faísca que se formava com a união de forças. Alguns anos depois, mais precisamente agora em 2007, as moças resolveram se reunir, lançando uma coletânea de seus maiores sucessos em CD e DVD, gravando duas músicas novas e viajando o mundo afora com uma turnê avassaladora, com o poder de fazer ingressos desaparecerem de bilheterias em frações de segundos.
Independentemente da diferença que as Spice Girls fizeram (e, quem sabe, voltem a fazer) ao mundo pop, sempre houve uma infinidade de outras mulheres bem-sucedidas e afamadas no meio musical, que deixaram suas marcas e que contribuem até hoje para o crescimento desse tal Girl Power – nem que seja através de vias reversas, como os tablóides e os sites de fofocas nos testemunham diariamente. Por merecimento, nada mais justo que dar uma conferida nos mais recentes lançamentos de algumas dessas poderosas e analisar o quão fortes estão os seus níveis de Girl Power. Com vocês, os novos álbuns de Jennifer Lopez, Britney Spears, Annie Lennox e, é claro, das Spice Girls!
Jennifer Lopez (ou J. Lo, para os íntimos) lança Brave, seu sexto álbum de inéditas, que marca para ela uma década como cantora. Assim como seus álbuns anteriores (sem considerar a incursão no latino-brega de seu penúltimo álbum, lançado no início deste ano), o repertório é calçado no hip-hop e no pop dançante. Nada mais do que uma sucessão de tudo que a cantora já fez, Brave não se trata de seu melhor trabalho e, mediante a enxurrada de cantoras latinas existentes no mercado pop e a baixa de popularidade da cantora no eixo fora dos Estados Unidos, dificilmente o álbum emplacará com força e produzirá mais do que 1 ou 2 hits nas rádios e na MTV. Do It Well, a primeira faixa de trabalho, é candidata a hit e aparece em duas versões – a original e a remixada, com participação do rapper-ator Ludacris. Outras faixas que merecem uma conferida são Stay Together (que abre o disco), Hold It, Don’t Drop It, I Need Love, e Brave – um popzinho nos moldes tradicionais, embalado e de letra grudenta. Os maiores pecados do trabalho de Lopez foram a obviedade e a falta de variedade: algumas canções se parecem demais com outras e fica fácil enjoar depois de algumas audições consecutivas.
Mudando de assunto, difícil mesmo é não falar de Britney Spears nos dias de hoje: a cantora teve grandes dias de fama, mas atualmente, dá-lhe escândalo em cima de escândalo! Seu nome só não está mais sujo na praça porque existem as Lindsay Lohans e as Paris Hiltons da vida, sempre dispostas a ser a bola da vez. Desde In The Zone, de 2003, a cantora não lançava nada além de uma coletânea de sucessos, falta grave para uma artista de pop descartável que precisa sempre estar nas paradas para vender bem e agradar aos fãs, sempre ávidos pelo novo sucesso do momento. Não que ser uma cantora de músicas descartáveis seja ruim – muito pelo contrário: Britney tem seus méritos, pois, afinal, mesmo cantando mal (sim, não é nenhum segredo que suas músicas são cobertas por backing vocals e efeitos digitais para disfarçar sua voz de pato e em seus shows ela só faz playbacks), investindo em letrinhas bobas e, atualmente, inundada em problemas, decadência e até falta de cabelo, a mulher ainda tem gás para outros rounds… O álbum Blackout, lançado por aqui em outubro, obteve uma boa vendagem dentro e fora dos Estados Unidos, e o primeiro single, Gimme More, é uma das músicas mais executadas nas rádios no momento. Ironicamente, Gimme More é umas das piores faixas do álbum, pecando pela falta total de originalidade e pela repetição irritante da mesma frase (no caso, o próprio título). Possivelmente para elevar a moral caidaça de Britney, o álbum deixa de fora as babas românticas, um dos cartões de visita da carreira da moça. O pop dançante invade as 12 faixas de Blackout e o resultado, por incrível que pareça, torna-o um de seus melhores trabalhos. Efeitos eletrônicos, vozes digitalizadas e refrões grudentos aparecem a toda hora, em faixas mais bacaninhas como Piece Of Me, Break The Ice, Get Naked (I Got A Plan) e Hot As Ice. De quebra, o encarte, embora não contenha as letras das músicas, é bem interessante em termos visuais, alternando momentos bregas (como a cantora vestida de espanhola e de mafiosa), provocativos (no qual Britney aparece sentada no colo de um padre, dentro de um confessionário) e autobiográficos (com revistas e tablóides rasgados pelo chão, nos quais a cantora ri da própria tragédia).
Fora dessa turma e disparadamente a mais adulta e mais discreta de todas as moças aqui citadas, a diva Annie Lennox, ex-Eurythmics, lança Songs Of Mass Destruction, seu quarto álbum de carreira solo, que conta com a produção de Glen Ballard (o homem por trás do estouro da canadense Alanis Morissette e por trás de um fiasco de produção junto à banda Aerosmith, que a gravadora Columbia nunca deixou sair da gaveta). Lennox continua afiadíssima, com toda a delicadeza que tem para cantar e escrever e ainda traz algumas novidades, se aventurando por outras sonoridades – boa parte, possivelmente, por influência do já mencionado Glen Ballard. O álbum abre muito bem com Dark Road, trazendo a agonia de um piano e um vocal aflito, com direito à intromissão do rock and roll. Love Is Blind tem batidas e guitarras fortes – tornaria a música uma intrusa no repertório da cantora, não fosse seguida por outra faixa potente, Ghost In My Machine. Coloured Bedspread lembra Lennox nos anos 80, em sua fase Eurythmics, com teclado em evidência, batidas curtas e vocais sobrepostos. Sing é um hino feminista animado e com influência gospel – delicioso. A cantora se aproxima mais de seus trabalhos anteriores em faixas como Big Sky ou nas contidas Through The Glass Darkly e Lost. Com menos postura que Diva e menos seriedade que Medusa e Bare, Lennox parece confortável para mexer em sua música, incorporar o rock, mesclar o hip-hop (vale citar ainda a faixa Womankind, que incorpora versos de rap da cantora Nadirah X e o resultado ficou bem interessante) e fazer um acerto em seu novo álbum, comprovando mais uma vez o talento da cantora, letrista e mulher, que canta e escreve com emoção e produz pop adulto com a mais alta qualidade.
Finalizando este artigo, voltamos às Spice Girls, que retornam ao cenário pop com a coletânea Greatest Hits. Embora sua carreira não tenha durado mais que 3 álbuns de estúdio, há repertório suficiente para agrupar em um CD com os maiores sucessos do grupo, cuja versão especial inclui ainda um DVD bônus com os clipes das músicas. Quem viveu a época e curtiu o pop dos anos 90, a coletânea é uma delícia: músicas e ritmos que já estavam meio esquecidos são relembrados nas boas vozes das 5 meninas. Letras suaves, belas melodias românticas e dançantes, além da presença de duas únicas faixas inéditas – o single que já é sucesso Headlines (Friendship Never Ends) e a animada Voodoo – comprovam por que canções como a carro-chefe do grupo Wannabe, a caliente Spice Up Your Life, as deliciosas Say You’ll Be There e Holler, as românticas Viva Forever, 2 Become 1, Goodbye e outras presentes na compilação chegaram para ficar e, mesmo mais 10 anos depois, continuam causando impacto nos fãs e divertindo apreciadores de música pop e descompromissada. Se não fosse tão difícil administrar o ego dessa mulherada toda, elas iriam muito além…
Mauricio Costa - É freak de computador, se aventura como DJ e é fã de cinema, séries e música, sobretudo a brasileira.
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amigo, adorei tua materia, escreves de forma sutil e coesa, a Annie Lennox é minha musa e nunca vi alguem escrever tão bem sobre a mesma. Parabens!!!