// você está lendo...

categoria: CENA CRÍTICA

O RAPAZINHO DE AZINHAGA

De Lisboa

Uma semana antes de completar 84 anos, José Saramago invadiu as livrarias portuguesas. O novo livro do escritor estava (e está) por todos os lugares. Porém, desta vez, não há nenhuma construção engenhosa a comungar com as divagações filosóficas de seu narrador tão conhecido. Saramago não se volta a personagens alegóricos como a morte, nem reconta a história da maneira como ele acha que ela deveria ter sido divulgada. Saramago volta-se a si mesmo em suas Pequenas Memórias.

Um livro simples. Causa até certa estranheza ler algo em que a simplicidade seja o maior ingrediente, ainda mais em se tratando do complexo José Saramago. Entretanto, essa singeleza da linguagem não quer dizer, necessariamente, uma menos valia na obra mais recente do escritor português, ainda que a sua leitura nos deixe com uma sensação de estranhamento, como se algo faltasse ali.

O que não faltaram foram as homenagens. Estrategicamente, a obra lançada pouco antes das comemorações dos seus 84 anos mobilizou toda uma nação para homenagear o escritor vivo de quem mais tem orgulho. Saramago voltou-se a si mesmo na literatura e na vida real, retornando à pequena cidadezinha de Azinhaga, no Ribatejo, onde foi recebido com uma festa nunca dantes vista na região. Milhares de pessoas mergulharam na cidade, sem estrutura para receber tanta gente. Entre eles, muitos estrangeiros, muitos espanhóis, pois a obra já foi lançada também por lá.

Na mídia, José Saramago foi bombardeado com programas, entrevistas “em direto”, reportagens especiais. E pela primeira vez eu pude observar: Saramago começa a sentir o peso da idade. Fisicamente está, agora, mais próximo do “velhinho”. Fala com mais dispersão, ainda que conserve a vitalidade do pensamento. De qualquer modo, pouco podia falar, pois quando entrevistado, havia um típico narcisismo exacerbado por parte dos jornalistas, que se esforçavam para parecer brilhantes, que se esforçavam para parecer conhecedores de literatura e da obra de Saramago, e resultavam nuns chatos, cortando a todo o momento o que mais se queria ouvir: o próprio Saramago.

Mas se não se pôde ouvir o Saramago com atenção, sempre se pode lê-lo. E aí, sim, sem interrupções. As pequenas memórias de Saramago procuram compreender a vida do escritor até os quinze anos ( E estão aqui terminadas essas memórias, disse ele, em entrevista. Só o que me faltava era quererem agora que eu conte a minha vida inteira. Nem interesse nisso haveria, disse, com sua conhecida modéstia).

A obra recupera personagens importantes na vida do escritor. Talvez um primeiro personagem seja a região de onde veio, um reduto de analfabetos, segundo o próprio, uma pequena vila no Ribatejo. Saramago não reconhece mais a aldeia em que nasceu, pois as oliveiras que lá existiam foram todas arrancadas, substituídas por um campo de trigo híbrido. O tempo passou. A natureza mudou. Esta paisagem não é a minha, não foi neste sítio que eu nasci, não me criei aqui.

Na percepção do núcleo familiar, fica claro o amor pela mãe e pelos avós maternos. Os avós paternos existiam mas não funcionavam e para carinhosos faltava-lhes tudo. Quem não apreciava nada esta preferência incondicional pelos avós maternos era o meu pai…

Não por acaso, é justamente ao recuperar as histórias dos avós maternos e da mãe que Saramago escreve suas melhores páginas, como as belas passagens em que narra a morte dos avós, envoltas por um lirismo que falta em boa parte do livro. Tu estavas, avó, sentada na soleira da tua porta, aberta para a noite estrelada e imensa, para o céu de que nada sabias e por onde nunca viajarias, para o silêncio dos campos e das árvores assombradas, e disseste, com a serenidade dos teus noventa anos e o fogo de uma adolescência nunca perdida: O mundo é tão bonito e eu tenho tanta pena de morrer.

Há um pouco de mágoa na construção da figura paterna, visualizada na violenta passagem em que o jovem Saramago apanha do pai na frente de um vizinho. No evento, Saramago jogava pinogol com o pai, enquanto o vizinho fazia uma pressão psicológica no menino, que perdia. Saramago mandou-o calar a boca. Ainda a frase mal tinha terminado e já o pai vencedor lhe assentava duas bofetadas na cara que o atiraram de roldão no cimento da varanda. Por ter faltado ao respeito a uma pessoa crescida, claro está. Um e outro, o pai e o vizinho, ambos agentes da polícia e honestos zeladores da ordem pública, não perceberam nunca que haviam, eles, faltado ao respeito a uma pessoa que ainda teria de crescer muito para poder, finalmente, contar a triste história. Além disso, Saramago recupera alguns traços da traição do pai com uma vizinha: minha mãe sempre suspeitou, ou teve prova suficiente, de certas intimidades entre o meu pai e ela…

Além da família (incluindo o carinho forte pela tia Maria Elvira), Saramago traz amigos do tempo da escola e outros vizinhos – há um belo episódio que mostra a amizade entre Saramago e um pintor mais velho, que se mostra uma espécie de primeiro interlocutor sensível, propenso à arte.

O escritor também explica (outra vez) como surgiu o Saramago, culpa de um funcionário do cartório que registrou um sobrenome que não existia. Saramago era a alcunha pela qual a família era conhecida na aldeia. Mais tarde, o pai de José teve, a contragosto, que modificar seu nome e incluir o do filho.

Em termos de construção literária, as memórias de Saramago trabalham pouco com todo aquele material de impressões e vivências subjetivas que nos acostumamos a ler em outras obras memorialísticas da literatura portuguesa, como as de Teixeira de Pascoaes ou Raul Brandão, para ficarmos em dois exemplos bem conhecidos. Se esses últimos traziam essa subjetividade para um nível lírico muito belo, mergulhando muito mais no profundo do rememorar do que nos eventos em si, a obra de Saramago preocupa-se mais com os eventos, o que muitas vezes resulta num vôo rápido pela superfície. São fatos narrados com a sua habilidade costumeira, porém não há em As pequenas memórias o genial narrador das obras ficcionais propriamente ditas. Assim, a leitura, muitas vezes, recupera eventos com os quais o leitor tem uma maior dificuldade de se apaixonar.

Contudo, há as típicas construções que cristalizam o passado frente aos olhos do autor no presente: E dos tempos passados vem uma imagem, a de um homem alto e magro, velho, agora que está mais perto, por um carreiro alagado (…) O homem é o meu avô… ou em Vejo-me, como se agora mesmo estivesse a suceder…. Em outras, há aquela névoa, a confusão das imagens.

Às vezes pergunto-me se certas recordações são realmente minhas, se não serão mais do que lembranças alheias de episódios de que eu tivesse sido ator inconsciente e dos quais só mais tarde vim a ter conhecimento por me terem sido narrados…

Saramago desfila as memórias quase sempre em primeira pessoa, mas muitas vezes distancia-se, utilizando a terceira, na forma de o rapazinho da Azinhaga e outras estratégias. Faz questão de mostrar-se racionalista, como no evento na igreja no qual, ainda muito jovem, espiou o que todos não podiam ver porque o padre assim o pedia, na hora da oração.

Há cenas brutas, como quando foi torturado por uns vizinhos mais velhos, e divertidas, exemplificado no episódio com a prima com quem teve suas primeiras descobertas sexuais. São poucos os momentos em que traz a imagem do homem-escritor, mas elas existem, quando recorda eventos que podem ter contribuído para a criação literária de algumas de suas obras, seja em A ambiciosa idéia inicial – do tempo em que trabalhava no Memorial do Convento, há quantos anos isso vai –…, seja em De tempos em tempos, aparecia ali de visita um parente deles, sobrinho ou primo seria, de nome Julio, cego, e que estava internado não sei em que asilo. (…) O que nele mais me desagradava era o cheiro que desprendia, um odor a ranço, a comida fria e triste, a roupa mal lavada, sensações que na minha memória iriam ficar para sempre associadas à cegueira e que provavelmente se reproduziam no Ensaio.

Ainda que não seja uma obra brilhante, como já nos acostumamos a ouvir e dizer das de Saramago, As pequenas memórias é um belo livro, que expõe um jovem que driblou as adversidades típicas do meio em que nasceu – Saramago não esconde, antes intensifica, esse passado pobre e a tendência para o analfabetismo – e tornou-se um dos maiores nomes da literatura mundial. Saramago deixa-se levar pela criança que foi, sem vergonha do que trilhou.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini

Comentários

Sem comentários para “O RAPAZINHO DE AZINHAGA”

Deixe um comentário