Martha Medeiros: ”Escrever é terapêutico. Se servir pra nós mesmos e mais ninguém, já valeu”
Martha Medeiros nasceu em Porto Alegre em 1961. Publicitária de formação, largou a carreira para dedicar-se à literatura. É autora de Strip tease, Topless, Poesia reunida, Geração bivolt, Trem-bala (que foi adaptado com sucesso nos palcos gaúchos), Divã.
Entrevista por Paulo Ricardo Kralik Angelini
Para um escritora consagrada, ainda há insegurança na hora de escrever? Como funciona tua autocrítica?
Martha Medeiros: Para mim não existe esta história de escritora consagrada. Eu me dedico hoje tanto quanto no início da carreira. Sempre bate uma insegurançazinha, mas nada que me estresse, que me paralise. Sou exigente comigo mesma, mas não sou tirânica.
O que muda no teu dia a dia quando estás no processo de criação de um livro?
Martha Medeiros: Não muda nada. Eu estou sempre escrevendo alguma coisa, sejam artigos para o jornal, versos ou o que for. Não tenho uma disciplina rígida de trabalho, eu misturo vida profissional, social e doméstica sem que isso me atrapalhe. Escrevo em casa, geralmente à tarde e à noite, e se por um acaso tenho um compromisso, eu paro tudo e continuo no outro dia. Não crio rituais, não sou inflexível, interrompo para atender o telefone ou fazer um chá. Escrever é apenas mais um dos meus lazeres. Sei que para alguns escritores esse meu processo não serve, compromete a concentração, mas eu me viro muito bem desse modo.
Qual tua expectativa no lançamento de teu novo livro, teu primeiro romance? Tua habilidade como cronista facilitou ou dificultou o processo na construção do romance?
Martha Medeiros: Eu considero o Divã um livro de transição entre a crônica e o romance. Ele é na verdade uma novela curta, um monólogo de uma mulher no analista. Meu lado cronista está presente, sim, e também meu lado poeta, em alguns momentos do livro a poesia aparece sutilmente. Foi um exercício pra mim, uma tentativa de começar a trabalhar com ficção, mas ainda tenho muito chão pela frente até poder dizer: escrevi um romance!
Quais são tuas influências literárias?
Martha Medeiros: Eu gosto de autores tão diversos que não saberia citar uma única influência. Adoro José Saramago, acho uma maravilha a maneira como ele consegue ser político e ser poeta na mesma prosa. Gosto muito de Philip Roth, Somerset Maugham, Oscar Wilde, Nick Hornby, Yasmina Reza, Peter Mayle, e de um filósofo chamado Cioran. Entre os nossos, acho Luis Fernando Verissimo absolutamente genial, assim como Clarice Lispector. Todos eles me ensinam muito, sobre literatura e sobre a vida.
Qual a importância de um evento como a Feira do Livro de Porto Alegre?
Martha Medeiros: A Feira é o principal acontecimento cultural do Estado. A cidade passa duas semanas respirando, comendo, vivendo literatura. É o momento em que o leitor convive não só com os livros, mas com os autores, pode bater papo com eles no meio da praça. Acho essa desmitificação muito saudável, já que escritores e leitores fazem parte da mesma tribo.
Qual a tua opinião sobre sites na internet que estimulam a criação literária e a discussão na rede?
Martha Medeiros: Tudo o que incentive a leitura e a criatividade é positivo, mas é importante que os candidatos a escritores tenham realmente necessidade de escrever, de se expressar, de se descobrir através da escrita, e não apenas a vaidade de se expor. Às vezes o pessoal quer apenas aparecer, acontecer, e acaba escrevendo qualquer coisa, entrando assim pra vala comum, onde todos os trabalhos se parecem. A gente tem que escrever, antes de mais nada, para a gente mesmo. Esquecer quem está do outro lado da tela, do outro lado da página. Tem que ter amor às palavras, amor à construção de um texto. Escrever é terapêutico. Se servir pra nós mesmos e mais ninguém, já valeu.
**
Produzido em 2002, às vésperas da Feira do Livro, em um especial do site www.argumento.net de nome “LETRAS DO SUL“, o espaço rebatizado TECE A ESCRITA traz o processo criativo de conhecidos (e novatos, à época) escritores das terras do sul, a relação com a literatura, influências e a internet.
Todas as entrevistas foram concedidas via email.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Oi, Paulo:
Estou gostando de todas as entrevistas que estás reproduzindo. Todas têm coisas em comum. No entanto, a da MARTHA MEDEIROS mostrou ter mais afinidade comigo. A parte que ela diz:”Escrever é terapêutico”, pode até fazer com que alguém (“autores consagrados”) torça o nariz, mas no meu caso tornou-se a mais pura e límpida verdade. Eu escrevo para não desaparecer.
Vou ficar esperando ansiosa as outras entrevistas.
Beijos
Marga