“Abriu a torneira e molhou as próprias mãos.
Queria molhar o próprio rosto, mas não podia tocá-lo com suas mãos como estavam.
Queria se olhar no espelho para ver seu estado, mas estava quebrado.
Feriado de mim mesmo, o terceiro livro do escritor paulista Santiago Nazarian, prende o leitor pelo clima thriller e hermético, quase sufocante, em que o romance se desenrola. Ninguém chega à página final sem ser picado pelo estranhamento que emerge da narrativa, que exige uma dose a mais de reflexão.
Hermann Hesse, quando acrescentou uma nota ao final da obra O lobo da estepe, alertou que escrevera aos 50 anos e que, portanto, o livro podia soar incompreensível aos leitores mais jovens, por tratar de problemas peculiares à idade. Aos 30 anos, Nazarian traz à tona questões conhecidas em qualquer idade, mas que, a cada novo acúmulo de vida, agregam elementos para uma nova leitura, fazendo surgir novos pontos de vista. A cada nova releitura, novas possibilidades acenam, impregnando os leitores com os tormentos do protagonista, – tormento de todos nós em alguma escala e em alguma ocasião.
Dividiria os dezoito capítulos em duas partes: na primeira, o autor apresenta a personalidade e a realidade do personagem principal através de diversas metáforas que se espalham pelo texto e se interligam. Na segunda parte, do capítulo 12 em diante, passa-se para ação, precedida por momentos de reflexão que desaguam em decisões e por momentos de realidade, nos seus variados matizes, mas embalados nas mesmas metáforas da primeira parte.
São diversas as formas metafóricas utilizadas pelo autor. Algumas se destacam e fornecem pistas sobre o desenrolar da narrativa, ajudando em seu entendimento. São constantes as referências à água nos primeiros capítulos, sobretudo no primeiro: gotas, pingos, chuva, torneira, chuveiro, etc. A fluidez da água, que corre sem ter forma e se adapta onde é colocada, “depois as coisas fluem”. Da água que precisa ser represada, exaurida, para não causar dano (“queriam fechar suas torneiras”) e que, quando se excede, deixa marcas de conflito e revolta como “roupas pingando encharcadas”.
No decorrer do livro, diversos outros líquidos ganham significado: vodca, suco, esperma e, por fim, sangue. – desenhando ora o curso disforme e adaptável do cotidiano do personagem, ora a exaustão que o faz sair de seu leito e transbordar. As mãos também ganham um forte significado no decorrer do texto. Não é à toa a imagem que ilustra a capa do livro, aliás, a própria mão do autor. Mãos carregadas, mãos que esfregam o rosto, que aquecem a vodca congelada, que se masturbam, transformando-se, num ato mecânico, em ferramentas de prazer e via de soluções. O terceiro elemento que aparece com destaque são os espelhos, os vidros como uma busca da identidade e uma certificação da continuidade de sua natureza, uma confirmação da felicidade, mesmo que ela “se espatife como uma garrafa”.
Outras figuras também aparecem na narrativa como indicativos: as janelas e a televisão que funciona como “janela do mundo” do personagem; a barata kafkaniana e clariceana, com o significado alegórico de alguém que perde as referências vendo seu cotidiano invadido por situações absurdas. Aproximar-se do inseto é um desafio para retornar ao estado primitivo e vencer o isolamento, mas isso o personagem não tem certeza se quer.
No que chamo de segunda parte, esses elementos crescem e se tornam decisivos no comportamento do personagem. O rapaz fluido e exausto, que usa as mãos como ferramenta de solução, depara-se com sua verdade: um invasor no seu espaço. A história que começa com peças mal resolvidas, que ele atribui à falta de memória, cresce e fica diferente dos livros infantis que traduz, no seu apartamento 107 (1+7 = 8, que deitado vira o símbolo de infinito: ∞).
É nesse ambiente, útero protetor e sem fim, que é gestada a vingança ao invasor “maior, mais cruel e definitiva”. Invasor que, além de rosto (que o protagonista pensa ser o seu próprio), tem nome e sobrenome: Thomas Schimidt – personagem que aparece em três livros da obra do autor. Isolado no mundo de fantasmas e espíritos, ele vai se tornando real, mas se apresenta num contexto de carinho, cuidado, fala de amor, faz-se presente. Chora quando o outro o manda embora, preocupa-se quando ele está sem comer, acompanha, atento, seus passos.
Schimidt (oito letras, como Nazarian) leva o personagem a uma cena de sexo, que é o único momento em que o protagonista não se debate e questiona, mas se entrega. No entanto, é a partir desse momento que o ódio pelo invasor cresce, e o personagem intensifica a vontade de “derrotar a parte fraca de sua personalidade”.
Qual seria essa parte fraca? A sexualidade, que está presente em todo o decorrer do livro. Logo no primeiro capítulo, a ex-namorada surge num devaneio muito distante, mas que o personagem teima em aproximar. Há a preocupação excessiva com a perda da masculinidade, pela barba que não cresce. A masturbação aparece como exercício físico sem rosto nem corpo, ou com ambos negados. A cena de sexo entre homens é uma das mais lindas do livro, mas quase que automaticamente gera uma reação de “sou macho e não tenho medo”. A negação da homossexualidade, aliás, está presente o tempo todo e se revela maior na parte final, quando pode ser injustamente indicada como a única causa dos transtornos do personagem, se relacionada à relação narcisista, competição, negação e inveja.
No capítulo 16, o personagem revela seu nome: Miguel. O único arcanjo, seis letras, como Thomas. Os elementos do início da narrativa voltam intensos. A fluidez dos líquidos, as mãos cortadas e anestesiadas pela dor – “nem sinto mais minhas mãos”. O espelho quebrado e o beijo vampiresco no sangue, sugando a vida na tentativa de que o outro sem vida viva dentro dele. Seria um arrependimento, um ato de egoísmo ou o corpo de um “sentimento masoquista”? Nessa parte, surge com veemência o que seria a segunda causa do comportamento de Miguel: o uso exagerado de drogas.
Embora, durante todo o livro, a única droga que apareça com evidência seja a bebida, em algumas ocasiões, nos capítulos finais, o uso (genérico) de drogas surge como motivador. Um prato cheio para os psicanalistas e membros do movimento proibicionista.
No fundo, Miguel apenas quer ficar sozinho, livre de sua carga, de suas angústias e de cobranças. Quer transformar em “alívios” seus “pesadelos”, sem invasões, nem mesmo as invasões de cuidado. A vida urbana aproxima os distantes, mas também isola identidades. O isolamento é uma característica da urbanidade, mas, de acordo com Irvin Yalom, autor de Quando Nietzsche Chorou, o isolamento só existe no isolamento. Uma vez compartilhado, evapora.
Compartilhar, no entanto, é uma das dificuldades destes tempos. Santiago Nazarian nos leva para caminhos que esquecemos ou tentamos evitar, vias que falam da individualidade e do isolamento. Falar disso não é fácil, e explorar esses sentimentos é perturbador, – mas, desse estranhamento, nasce um conhecimento maior. Quando isso acontece, o escritor cumpre seu papel.
>>> LIANDRO LINDNER, llindner@terra.com.br – Jornalista, vive em Brasília.
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Foi engraçado… conheci o blog de vocês por intermédio de outros blogs sobre literatura e textos na Internet. Gostei, coloquei na barra superior do meu navegador e há uma semana venho dando umas olhadelas… e tenho gostado muito. Hoje fiquei encantada ao ver o título “Feriado de Mim mesmo” e logo pensei: “será que é sobre o livro do Santiago Nazarian?”. Resolvi ler para tirar a dúvida. Ótima crítica, ótimo texto, e perfeito livro, não é?
Comprei “Feriado…” numa feira de livros que aconteceu aqui em Palmas, Tocantins. Li em um dia. Pesquisei na Iternet sobre ele e voltei à feira em busca de outro livro dele: ” A morte sem nome”. Todos muito bons.. indico a leitura assim como vc fez em sua excelente resenha!
Parabéns ao blog. Voltarei mais vezes.