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categoria: 2009

TANGO EM GRAMADO

Paulo Ricardo Kralik Angelini, especial argumento.net em Gramado

 

DIRA PAES NO DIA DOS PAIS

Zé Victor Castiel (absolutamente contido) e Renata Boldrini subiram ao palco do Palácio dos Festivais e deram início aos trabalhos na serra gaúcha. O primeiro momento importante do evento foi a homenagem – talvez precoce, mas totalmente justa – a Dira Paes, uma das mais constantes presenças nas telas do cinema nacional nos últimos tempos.

Dira ficou conhecida do grande público como a Edileusa, a melhor amiga da diarista Marinete, na TV Globo. Contudo, quem é íntimo da cinematografia brasileira pode citar meia dúzia de bons filmes que contam com a presença da atriz. Os meus favoritos com ela no elenco? AMARELO MANGA, Ó PAÍ Ó, A FESTA DA MENINA MORTA, CORISCO E DADÁ, CRONICAMENTE INVIÁVEL e CELESTE E ESTRELA.

Dira levou a sério a premiação e vestiu-se com pompa e circunstância. No frio úmido da cidade, desfilou com um longo preto. Porém, no palco, foi o carisma de sempre que chamou a atenção do público, agradecendo emocionada à homenagem, e dedicando-a ao seu pai. Pena que a plateia estivesse vazia. A homenagem bem que poderia ter sido antes do filme de Sergio Silva, com quem Dira, aliás, já trabalhou.

 

QUASE UM TANGO

primeiro filme da mostra competitiva nacional foi QUASE UM TANGO… Sergio Silva, o diretor, lembrou, antes da exibição, que a maior vantagem de um filme gaúcho é a possibilidade de quase toda a equipe de produção subir a serra, sem gastar o dinheiro do Festival. O filme de Sergio era uma incógnita, pois é ele o diretor do competente ANAHY DE LAS MISIONES e do constrangedor NOITE DE SÃO JOÃO. Ninguém comprava muito a ideia da sinopse, principalmente pelo fato de contar que “um pequeno agricultor do interior gaúcho” era  interpretado por Marcos Palmeira, a enésima vez vivendo um ingênuo personagem interiorano. Pois justamente Palmeira é o grande destaque do filme de Sergio Silva, que é terno e possui excelentes momentos e bons diálogos, sempre prezando, como mesmo disse o diretor na apresentação inicial, a vida simples. Ainda que a história não seja nada original – um agricultor que desiste de seu apego às terras herdadas da família, vende-as e larga tudo para tentar a vida na capital – a narrativa agrada. Marcos Palmeira é Batavo, filho de um holandês que decide namorar a filha do vizinho (Vivianne Pasmanter, que representa as quatro mulheres da vida do personagem, uma boa sacada do roteiro), mas que por ela é abandonado, numa cena pouco crível, depois de casados. Na tentativa de convencer o público de que o protagonista ama aquela vida pacata do interior, e sua esposa detesta, o filme insiste em imagens bucólicas – numa fotografia bonita, ainda que protocolar – que deleitam o agricultor, sempre em simbiose com a natureza: conversa com o sol, com o cavalo, munido de seu chimarrão, criando o estereótipo do gaúcho típico e perdendo em verossimilhança. O ritmo arrastado se modifica quando Batavo vai a Porto Alegre, não para ir atrás da mulher fugitiva, mas sim para modificar a sua própria vida.

A Vivianne Pasmanter que ele conhece em Porto Alegre significa a possibilidade de felicidade legítima. O confronto entre capital e interior não é levado a situações lugares-comuns, mas poderia. Poderia entrar em cena o matuto que nunca viu uma escada rolante, uma sinaleira, e outras marcas da urbanidade, solução fácil para ridicularizar o rural. Silva consegue fugir disso, e focar sua câmera na extrema simplicidade e no bom coração do personagem. Justamente aí Palmeira convence: seu Batavo possui momentos de uma doçura contagiante.

Um bom time de atores gaúchos surge em cena. O destaque é para Araci Esteves, com quem, aliás, Marcos Palmeira filmou ANAHY, dona de uma pensão para moços. Luiz Paulo Vasconcelos rende uma divertida cena, dentro de um prostíbulo, dirigido por sua esposa na vida real, Sandra Dani, excelente atriz que carrega no teatrão e aparece um pouco deslocada.

O melhor amigo de Batavo em Porto Alegre é vivido por Alexandre Paternost, que pouco faz.

Vivianne Pasmanter está ótima no papel da esposa definitiva, mas resvala em um sotaque estranhíssimo no papel da mocinha rural. Ela também faz uma “ponta” como uma prostituta e como uma garota do calendário, o que rende, aliás, os piores momentos do filme.

A narrativa inicial é entrecortada por sonhos do brucutu com uma modelo, resultando em esquetes oníricas embaraçosas, em uma estética anos 80, a la Thriller e Zé do Caixão. Incompreensível o porquê destas três ou quatro cenas permanecerem após a edição final, pois de nada acrescentam na narrativa, ao contrário, provocam um risinho constrangido da plateia.

De qualquer modo, QUASE UM TANGO… transparece uma honestidade em cena, talvez resultado do bom entrosamento da equipe, fato aliás festejado por Sergio Silva em seu discurso, quando disse nunca ter se divertido tanto em uma produção. A trilha sonora de Leo Henkin, a edição de Giba Assis Brasil e a atuação de Marcos Palmeira, além dos bons coadjuvantes em cena, fazem de QUASE UM TANGO… uma obra que merece ser vista. 

   

 

Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao 37 º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO. Acompanhe aqui, diariamente, tudo o que rola no evento cinematográfico da cidade serrana mais charmosa do país.

 

 

 

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “TANGO EM GRAMADO”

  1. olha respeito sua opinião, porém na minha visão a Vivianne Pasmanter é a grande estrela do filme, no qual seria apagado sem a sua performance…

    Posted by Patricia PR | August 11, 2009, 16:15

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