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categoria: 2009

OS MUITOS LADOS DAS ESTRELAS

POR QUE EU GOSTEI

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini, especial argumento.net em Gramado 

 

O último filme em exibição da mostra nacional competitiva foi CORPOS CELESTES, dirigido por Fernando Severo e Marcos Jorge. Severo, emocionado, lembrou Gramado que já havia ganho um prêmio na categoria Super8, e que, naquele momento, pensou que sua carreira de cineasta iria deslanchar. Muito tempo depois, exatos 29 anos, apresentava a Gramado seu primeiro longa-metragem. Já Marcos Jorge vem com o nome em alta por conta de ESTÔMAGO, obra independente que caiu nas graças da crítica e faturou muitos prêmios pelos festivais do Brasil.

Fez uma bonita homenagem a Antar Rohit, ator americano (e artista plástico) que faleceu precocemente e não chegou a ver a obra finalizada (o filme está pronto desde 2006, mas foi adiado por conta de ESTÔMAGO). O discurso de Jorge foi um dos mais poéticos, sem ser piegas, de todo o Festival.

O que mais chama a atenção de CORPOS CELESTES é que ele seja um filme de baixo orçamento: o cuidado da produção é louvável.

O prólogo da obra, os primeiros 40 minutos, é de uma beleza ímpar. Chiquinho (Rodrigo Cornelsen, ótimo, um verdadeiro achado da equipe) é um menino curioso, que vive em uma cidadezinha paranaense, a espiar um estranho norte-americano, Rick (Antar Rohit), dono da maior casa da região, que por sua vez espia as estrelas em um telescópio. A curiosidade de ambos pelos planetas faz com que se aproximem e travem uma convivência mal-vista pela comunidade.

A química entre Cornelsen e Rohit é fantástica, e há cenas de uma poesia emocionante, como aquela em que Rick ensina, na prática e a partir da utilização de frutas e legumes, a disposição dos planetas no universo. Rick é um solitário, por algum motivo abandonou a família nos Estados Unidos e vive naquele lugar ermo; como as estrelas, que por vezes morrem, mas deixam seu rastro e seu brilho por mais tempo, anúncio de uma vida já apagada, com os dias contados.

Os créditos de abertura só vêm quarenta minutos depois. Chiquinho já é professor de astronomia na Universidade. Apesar de Danton Vigh estar convincente em cena, a ausência de Cornelsen é uma pena. Deve ser por isso que os diretores colocam trechos do menino em flashback, técnica algumas vezes desnecessária, mas sempre comemorada pela magnética presença do pequeno. A entrada da bela Carolina Holanda no filme é o seu ponto mais fraco. A fim de compor o personagem do Francisco maduro como uma cópia similar do apagado Rick – há dinheiro e projeção profissional, não há afeto – o roteiro prevê que ele se envolva com uma mulher que ama a vida (exageradamente, a direção falha e Holanda é por demais careteira), mas que sobre as origens dela nada se saiba. É pouco convincente que uma desconhecida e espaçosa vá morar com alguém e não se sabe nem o sobrenome dessa pessoa. A situação piora quando entra em cena o filho de Rick (Jeff Beech, fraco), um personagem que não diz a que veio, a não ser o óbvio: vasculhar a infância de Chico.

É uma pena que um filme com um início tão promissor resvale em algumas passagens por demais melodramáticas ou pouco críveis. Apesar destes percalços, CORPOS CELESTES consegue manter um ritmo interessante e merece ser conferido. Em uma mostra nacional tão fraquinha como a deste ano, pode levar alguns kikitos.           

 

POR QUE EU NÃO GOSTEI

 

Marcelo Brody ,especial argumento.net em Gramado 

 

Ruy Guerra foi o agraciado da última noite da mostra competitiva, em que lhe foi entregue o Kikito de Cristal. Após a apresentação do cineasta pelos mestres de cerimônia, Renata Boldrini e Zé Vítor Castiel, Guerra subiu ao palco e emocionou a todos, se reportando a uma resposta, dada por Gabriel Garcia Marques, quando esse foi indagado por um jornalista para saber os motivos pelos quais ele escrevia. Parafraseando o escritor, disse que fazia cinema para ser amado, apesar de ser um fascinante e doloroso ofício.
Logo a seguir foi exibido o último longa-metragem desta edição do Festival, CORPOS CELESTES, de Marcos Jorge e Fernando Severo. A película é uma mescla de estilos: alegoria e realismo são as vertentes escolhidas pelos diretores na confecção desta obra. O prólogo, que é a parte mais bacana do filme, encanta a plateia a partir do magnetismo, carisma e excelente interpretação de Rodrigo Cornelsen, que vive Francisco em criança, mais adiante interpretado por Dalton Vigh. O lirismo da primeira parte do filme dá lugar a uma narrativa enfadonha, na qual personagens surgem sem maiores explicações, como no caso da namorada do protagonista, Carolina Holanda, que além de ter surgido do nada, não cumpre uma função relevante na película. O filho do americano que cometeu suicídio no início do filme surge também através de uma forma muito forçada. Se ele sabia da existência de Francisco, como amigo de seu pai, como pode ter ficado surpreso quando o protagonista lhe disse que seu pai havia cometido suicídio? CORPOS CELESTES apresenta um roteiro que utiliza a narrativa dos personagens em diálogos absolutamente forçados para dar entendimento do enredo ao público: como na passagem entre Diana e o filho do americano no táxi e na conversa entre o irmão mais velho e Francisco na borracharia, quando o mesmo retorna a cidade.

Desta forma, infelizmente, fica empobrecida a história com a utilização desses recursos retóricos, uma vez que uma imagem vale mais do que mil palavras. Encerra-se mais um Festival sem maiores surpresas, principalmente na mostra nacional, alternando-se documentários e ficção que possivelmente vão dividir os desejados kikitos, uma vez que não houve nenhuma obra vista sem alguma ressalva. Já a mostra competitiva das produções estrangeiras trouxe alguns títulos bastante impactantes, para a felicidade do público presente. Fica a certeza de que o cinema nacional ainda busca a sua identidade, e o Festival cumpriu o seu papel ao trazer esta diversidade de produções e estilos, cabendo ao espectador fazer as suas escolhas e a sua crítica.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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