Paulo Ricardo Kralik Angelini, especial argumento.net em Gramado.
Colaborou Marcelo Brody.
O FIM DA ESTAÇÃO
O céu parece clarear em Gramado. No início da tarde desta segunda-feira, parou de chover, o frio aumentou e as nuvens começaram a dançar, abrindo espaço para o esquecido azul.
O segundo dia da mostra competitiva teve o primeiro representante estrangeiro: LA PROXIMA ESTACIÓN, do argentino Fernando Solanas, diretor já premiado em Gramado. A película é um documentário, integrante de um projeto de outros quatro longas, que constroem um grande painel desde a grave crise econômica na Argentina, no início de 2000. Narra o esfacelamento da extensa rede ferroviária do país vizinho, aliás um fato comum às nações subdesenvolvidas. Solanas divide seu filme em capítulos, denominados estações, e cumpre o papel de filme denúncia. Além do desvio de verbas, do desumano desmanche do sistema ferroviário, acarretando uma enorme leva de demissões (80% da rede foi desativada), equipamentos caríssimos comprados para a fabricação de maquinário e trilhos foram saqueados, muitos deles com a conivência dos órgãos públicos. Nada que cause estranheza a nós, brasileiros. Apoiado no testemunho de personagens de diferentes esferas sociais, desde antigos trabalhadores da rede (em depoimentos emocionados, alguns em estado de miséria, porém sempre lúcidos e bem-articulados) até políticos que se dizem surpresos com as informações trazidas pela equipe (será que é síndrome da América Latina o famoso bordão: eu não sabia de nada?), LA PROXIMA ESTACIÓN, embora não tenha conseguido uma grande identificação com a plateia de Gramado, consegue manter o interesse. Menem, figura patética da política do país vizinho, digno canastrão de alguma republiqueta de bananas de Woody Allen, leva o kikito de maior vilão. Kirchner, eleito para tentar moralizar, prometeu recuperar a situação dos ferroviários, mas nada fez, começando inclusive a vender prédios públicos a preços ridículos, leva o kikito de coadjuvante.
LA PROXIMA ESTACIÓN consegue a façanha de terminar um tanto quanto poético, ao mostrar o papel social e até lúdico do trem, que aos poucos desaparece, literalmente, dos nossos trilhos, deixando cidades, aldeias, pessoas ilhadas no meio do nada. Mais que isso, mostra a força de luta do povo argentino, que consegue, com seu incorformismo, incomodar as autoridades, seja nas paneladas, seja na recuperação em mutirão de uma estação de trem abandonada. Bem que o povo brasileiro poderia, nisso, copiar os hermanos. Um pouco convencional, talvez até televisivo, mas com uma assinatura que merece presença na mostra e desperta a curiosidade do espectador.
ESQUIZOFRENIA
Qual a função de um Festival de Cinema? Obviamente, cada mostra assume sua própria identidade, muitas vezes construída ao longo de décadas. Uma dessas funções é a de abrir espaço para obras pouco convencionais. Assim como em um desfile de modas: ninguém compra as roupas que as modelos vestem; aquilo é conceitual. Em um festival, talvez vejamos obras que nem terão a oportunidade de estreia nas salas de cinema comerciais. Obras de estética não tradicional, que subvertem a lógica, que desviam a norma, que rompem com a fórmula. A FESTA DA MENINA MORTA, ano passado em Gramado, é um bom e competente exemplo disso. Outras vezes, pode-se chegar ao extremo desse anticonvencionalismo: a experimentação. Bom, a própria palavra diz: experimentar é desenvolver algo novo, aparentemente diferente. A CANÇÃO DE BAAL, segundo longa nacional em competição, dirigido por Helena Ignez, assumidamente pretendia ocupar a vaga de filme-híbrido da mostra.
“Quando a gente entende uma história, é porque ela foi mal contada”, diz, em certa altura, um personagem do filme. E é justamente este o mote, o desejo pleno da obra: se fazer incompreensível. Desde a primeira cena, A CANÇÃO DE BAAL tenta, exaustivamente, não dizer nada. Ou dizer tudo com o nada. E eis uma teorização digna de conversa de bar: isso é válido?
Cenas com algum apuro visual que se pretendem artificiais. Atuações absolutamente forçadas, falas ditadas, canhestras (à exceção de Beth Goulart, que em poucos minutos ilumina a tela). Personagens soltos, não encadeados. No início do século XX, Fernando Pessoa trabalhou naquilo que acreditava ser o verdadeiro teatro simbolista, com a peça O Marinheiro. Pretendia, o escritor português, a escrita do não personagem, do não enredo, do não movimento, da não ação. Helena Ignez não citou Pessoa (mesmo porque sua obra está longe de ser simbolista), mas falou em Brecht, talvez porque todos achem que qualquer coisa estranha pode ser Brechtiana ou Kafkiana, mesmo que pouco saibam sobre ambos. De qualquer forma, pouco se vê de Brecht no filme. Não se trata do teatro épico, não traz consigo características de distanciamento utilizadas pelo referido autor: seja através das canções em coro, seja principalmente através do rompimento brusco das esquetes com o congelamento das cenas por algumas frações de segundo, artifícios tipicamente utilizados por Brecht com a função de afastar o apelo emocional dos personagens e se concentrar no aspecto político das situações encenadas. Tampouco o musical anunciado pela diretora se faz presente. E nada tem de épico. Ou seja, não é o vendido musical épico brechtiano anunciado por Ignez, e talvez seja isto o que mais incomode nesta obra, ou seja, vender algo que não é entregue ao espectador. Por mais inventivo e original que a narrativa possa pretender se apresentar, ela não traz as características anunciadas e isto causa mais desconforto e frustração ao público, que obviamente pode ser tachado de pouco inteligente ou conservador por não ter afinidade com o referido filme.
A CANÇÃO DE BAAL é uma compilação de cenas que pouco dizem. Evidentemente que o cinema experimental deve ter espaço. Entretanto, um Festival como o de Gramado, que convida celebridades da Malhação e as anuncia em pleno cerimonial noturno; que estende um tapete vermelho para que os tietes se aglomerem do lado de fora; que deixa pouquíssimo espaço na sala de cinema para o público, cobrando exorbitâncias para os poucos que a esses lugares se habilitam; que divide a sala em cores, reprodução sutil de uma escala hierárquica ridícula dos que podem mais e menos (e isso não tem absolutamente nada que ver com afinidade cinematográfica, pois patrocinadores e atores televisivos B conseguem seus lugares vips)… enfim, ou muito me engano, ou o Festival de Gramado nunca abandonou seu foco para o popular, para o comercial. Portanto, em ano de 85 inscritos, parece que a comissão quis dar ares de moderninha ao escolher uma obra tão não Gramado. Enfim, essa nem Einstein nem Freud explicam.
Argumento.net é veículo oficialmente credenciado ao 37 º FESTIVAL DE CINEMA DE GRAMADO. Acompanhe aqui, diariamente, tudo o que rola no evento cinematográfico da cidade serrana mais charmosa do país.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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