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categoria: 2009

CURTAS GAÚCHOS

Quinta-feira. A manhã de Gramado amanheceu ensolarada. Muitas pessoas fazendo jogging e exercitando-se, depois de dias tão nebulosos. Muitas outras também decidem sair da cama mais cedo e acompanhar a sempre concorrida mostra de curtas gaúchos. A sala do Centro Municipal de Cultura, dez da manhã, não estava completamente lotado, mas com um público infinitamente superior à maioria das sessões vespertinas fora de competição no Palácio dos Festivais. Sete filmes em exibição pela manhã, e mais oito pela tarde. O balanço final é animador: fazia tempo que eu não assistia a uma mostra gaúcha com tanta qualidade.

DE VOLTA AO QUARTO 666, de Gustavo Spolidoro, é um bom começo, pois o curta é a própria homenagem ao cinema. Em 1982, Wim Wenders perguntou, em QUARTO 666, qual seria o futuro do cinema. Um dos entrevistados foi Michelangelo Antonioni. Quase 25 anos depois, Spolidoro coloca Wenders na frente da câmera para que ele questione suas próprias indagações. A boa sacada do filme, com bela edição, é a fusão de imagens em tempos distintos (o já falecido Antonioni surge e emociona Wenders), tão bem realizada que é quase como se todos partilhassem esse mesmo espaço. E de fato partilham.

DO MESMO LADO DO MURO, de Bruno Carvalho, traz Pedro Tergolina, o menino do multipremiado DONA CRISTINA PERDEU A MEMÓRIA, como um adolescente típico da geração atual: pouquíssima motivação e nervos à flor da pele. Uma namorada mais-ou-menos, dezenas de cartazes de sua banda a serem colados, mas nenhum muro serve… Situações opacas, uma vida sem cor e um personagem daltônico. Com boa atuação do elenco juvenil, o curta possui um competente trabalho de câmera e tem um final bastante interessante, quando o microcosmo vence o macro: é no quarto que o adolescente de fato é dono do terreno. E só lá.

ENCICLOPÉDIA, de Bruno Gularte Barreto, conta com o pequeno prodígio Eduardo Sandagorda, já premiado por trabalhos na televisão, como um menino apaixonado por livros de enciclopédia. Seus sentimentos são traduzidos por verbetes, sempre à mão para socorrer seus dramas de infância. Todos sabem como é difícil dirigir crianças, e os pequenos que aqui aparecem fazem trabalho de gente grande. É um filme doce, querido, muito por conta de Eduardo, Amanda Urnau e Luíza Mor.

JOGO DO OSSO, de Henrique de Freitas Lima, faz parte de um projeto urgente de trazer às telas do cinema os ótimos causos de Blau Nunes, de Simões Lopes Neto. Contando com um bom elenco, encabeçado por Evandro Soldatelli, Tiago Real e Renata de Lélis, o curta tem uma megaprodução, realizada em São Gabriel. Porém, há qualquer coisa que não funciona como deveria: algumas cenas são bastante artificiais, a presença do narrador por vezes se perde e aparece desnecessária. A despeito do talento dos envolvidos, o resultado é uma obra que deve ser divulgada nas escolas, mas enquanto cinema deixa um pouquinho a desejar.

PALAVRA ROUBADA, de Mirela Kruel, é um poético ensaio sobre o amor. Marcelo Adams e Rodrigo Fiatt decidem roubar a maleta de um velhinho, e descobrem que o conteúdo é apenas valioso para ele mesmo. Há ótimos enquadramentos, uma bela fotografia e uma sacada que remete a LOST IN TRANSLATION: na revelação do segredo do filme, a palavra é roubada pelo barulho de um trem que cruza a tela. Aliás, definitivamente o Trensurb entrou como cenário dos curtas gaúchos, tendo aparecido em três ou quatro produções.

QUIROPTEROFOBIA, de Fernando Mantelli, entrou com o aval de participar da mostra nacional, o que sempre garante uma espécie de nariz torcido da concorrência, já que os outros foram preteridos da mesma. Enfim, o filme de Mantelli nada tem a ver com isso e consegue trazer um suspense e um clima de terror competentíssimos. A bela iluminação e a trilha de 4Nazzo, além da atuação espetacular de Nelson Diniz, garantem claustrofóbicos momentos na história de um casal e um taxista que se veem sequestrados por um estranho adorador de sangue. A nota bacana é que o roteirista, Tiago Rezende, é ex-aluno do Colégio João XXIII e participou do projeto que há na escola de produção amadora de curtas.

Outro que também participou da mostra nacional foi A INVASÃO DO ALEGRETE, uma brincadeira despretensiosa que caiu no gosto da plateia da mostra nacional e, é claro, provocou ainda mais gargalhadas e aplausos na exibição da competição gaúcha. Um telefonema anônimo para um médico de Alegrete avisa de uma suposta invasão da vizinha e rival Uruguaiana. Em tom farsesco, com cenário fake e recheado de piadas e referências gaudérias, o filme de Diego Müller tem um bom ritmo e consegue arrancar muitas risadas do público. É um pouco ingênuo, mas talvez a intenção seja realmente essa. Destaque para o grupo de atores, em especial Miguel Ramos.

AOS PÉS, de Zeca Brito, conta a história a partir de um ponto de vista inusitado: os pés. Carla Cassapo e Leonardo Machado emprestam seus pés, canelas e vozes a um casal que se encontra e tem “one night stand”, e o resultado é um bom filme.   

FOGO, de Hique Montanari, é um exercício de linguagem com belíssimo visual. Cada quadro da fotografia em preto e branco de Juarez Pavelak é de um apuro técnico impressionante. O elenco de gaúchos notáveis – Irene Brietzke, Nelson Diniz (só dá ele neste ano), Liane Venturella, Sandra Possani, Naiara Harry, entre outros – improvisou e inventou uma língua, incompreensível, assim como o roteiro. Entretanto, ainda que hermético, o ótimo trabalho estético merece ser conferido.

GROELÂNDIA, de Rafael Figueiredo, trata da incomunicabilidade entre mãe e filho, em tempos distintos. Liane Venturella brilha, e seu rosto angelical nunca esteve tão perverso. Contudo, a tarimbada atriz tem como apoio dois atores iniciantes muito competentes, especialmente o menino mais novo. O elenco atua com uma naturalidade pungente, e o público vê-se testemunha próxima dos conflitos familiares. O excelente roteiro de Cristina Gomes (a última cena é inspiradíssima), a boa edição de Fabio Lobanowsky fazem de GROELÂNDIA um dos mais belos curtas desta safra gaúcha. Talvez merecesse um espaço na mostra nacional.

Outro que merecia um espaço na competição oficial é MAPA-MÚNDI, de Pedro Zimmermann. O capricho da produção, que conta com uma dupla de atores bem conhecidos nacionalmente, Walmor Chagas e o sumido André Mauro, é notável. A fotografia, a trilha sonora e os efeitos visuais são de primeira categoria. Walmor reina absoluto, interpretando um velho que mora isoladamente em algum canto não habitado no interior do Rio Grande do Sul, e de lá não consegue partir. É um trabalho terno, uma história saborosa que foi extremamente aplaudido. 

LIVROS NO QUINTAL, de Vinicius Cruxen, é livremente inspirado na música homônima de Vítor Ramil. Uma mulher debate-se com seus conflitos. Outro exercício de linguagem, visualmente interessante, mas que não chega a decolar.

Outro ponto positivo são as produções do pessoal recém saído da universidade: a PUC apresentou dois excelentes trabalhos, MARESIA, de Christian Schneider e Natália Piva Chim, e

SEGURA NA MÃO DE DEUS, de Elisa Slim. O primeiro é uma bonita obra em preto e branco sobre uma bailarina que é violentada, contando com a expressividade de Patrícia Soso. O outro é uma comédia, com um argumento que não é creditado, mas que inegavelmente remete a Intermitências da morte, de José Saramago. Numa cidade, uma fanática por velórios vê-se em dificuldade quando ninguém mais morre. Deborah Finocchiaro, já se sabe, tem o timing perfeito para a comédia, e brilha. O problema do curta é que, do meio para o fim, ele se perde, e as cenas finais apelam para o escatológico e para o humor mais fácil. Da Unisinos veio SOBRE UM DIA QUALQUER, dirigido pelo jovem e tímido Leonardo Remor (que quase não conseguiu falar na apresentação da obra), tem como grande destaque a ótima Sissi Venturin, como uma mulher que decide transformar a sua vida. 

 

 

Sexta-feira. Quase 30 graus em Gramado. Após o tornado Xuxa, a cidade agora recebe suas patricinhas e mauricinhos de plantão, gente ávida por ver e ser vista. Fica mais difícil transitar pela cidade serrana. Ontem à noite, foram escolhidos os melhores filmes gaúchos, o troféu Assembleia Legislativa. Lamentei que GROELÂNDIA tenha saído de mãos vazias. O melhor filme foi DE VOLTA AO QUARTO 666, de Gustavo Spolidoro. Quem mais carregou peso foi a equipe de SOBRE UM DIA QUALQUER, que levou 6: diretor, atriz para Sissi Venturin, montagem, direção de arte e fotografia. Acho que FOGO merecia algum prêmio técnico. O prêmio de melhor ator foi para o ótimo Nelson Diniz, por QUIROPTEROFOBIA, que disse ter vencido pelo conjunto da obra: ele estava em outros dois curtas, FOGO e A INVASÃO DO ALEGRETE. Querido do público, este último levou apenas o de roteiro. O de produção executiva foi merecido: MAPA-MÚNDI. E JOGO DO OSSO (música) e LIVROS NO QUINTAL (edição de som) completaram a premiação.       

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

3 comentários para “CURTAS GAÚCHOS”

  1. Olá Paulo,
    estava navegando e descobri teus comentários sobre a mostra gaúcha em Gramado. No meu blog, recebi teu comentário, e que bom que concordamos quanto à qualidade superior do filme do Rafael. Meu filme, Palavra roubada, também foi bem recebido por ti. Que bom.
    Temos algo mais em comum: fiz Mestrado em Letras na PUC, e no ano que vem inicio o Doutorado. Faço bastante teatro, e vou te colocar em meu mailing para divulgar novas temporadas.
    Abraço,
    Marcelo Adams

    Posted by Paulo Ricardo Kralik Angelini | August 17, 2009, 0:37
  2. Oi Paulinho, adorei os comentários sobre o elenco. E também tive notícias de que o filme teve ótima acolhida na sessão da mostra. Infelizmente não pude ir, já que estamos (eu, Cris e Maya) morando no Rio, já faz um ano.
    valeu, amigo! Abraços, Rafa Figueiredo

    Posted by Paulo Ricardo Kralik Angelini | August 17, 2009, 0:43
  3. ei, adorei a selecao, otima, vou buscar esses filmes, varios nao vi. estou a procura de um curta gaucho que se passa num manicomio ou algo do tipo. dois caras se encontram e discutem la tempo, espaco. a fotografia eh saturada de branco, bem claro. e o dilema eh o delirio e tensao na discussao de ambos. por favor, se souber q filme estou falando, me mandas um e-mail?

    Posted by carolina | January 10, 2011, 2:16

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