Todos sentindo obscuramente que na despedida se poderia talvez, agora sem perigo de compromisso, ser bom e dizer aquela palavra a mais — que palavra? eles não sabiam propriamente, e olhavam-se sorrindo, mudos. Era um instante que pedia para ser vivo. Mas que era morto.
Selton Mello tem hoje, no cinema brasileiro, um papel que, talvez, apenas Matheus Nachtergaele, Lázaro Ramos e Wagner Moura também tenham: ator que transformou seu trabalho de atuação numa espécie de grife. Todos os quatro são excelentes, não há dúvida, mas todos, a seu modo, possuem um certo maneirismo. Selton tem aquele sotaque carioca carregado, o jeito rápido de falar, sempre com tiradas geniais… Selton? Ou os personagens que ele faz, um a um?
Na literatura, chamamos de autor implícito aquele ser imaginário que construímos a partir de um conjunto de obras dele lidas. Ou seja, não conhecemos determinado autor, mas, tendo em vista uma pretensa familiaridade com o que e como ele escreve, achamos que o conhecemos. No cinema isso também existe. Ainda que alguns atores vivam dando entrevistas, muitas vezes construímos uma imagem de sofisticação, malandragem, etc. a partir, apenas, de uma série de personagens por eles desenvolvidos.
Pois ao assistir à estréia de Selton Mello no cinema, FELIZ NATAL, enxerguei o Selton Mello em diversos personagens da obra. Inclusive, há uma interpretação quase osmótica de Thelmo Fernandes: os trejeitos, o discurso, é Selton Mello que está lá. E esse para mim é um dos maiores problemas do filme: personagens tão dramaticamente solitários e em ruínas que quase todos parecem se reunir em um. E quase todos têm qualquer coisa de Selton Mello.
Muito se fala em filme difícil. Isso porque a história de FELIZ NATAL é fragmentada e os personagens confundem-se, no início da narrativa. Tudo é denso, acompanhando o acorde quase fúnebre da trilha sonora, que se repete à exaustão. Um irmão mais velho, Leonardo Medeiros, chega a uma festa de Natal. De cara, lembramo-nos do fabuloso conto Feliz aniversário, de Clarice Lispector. Uma família perfeitamente desajustada e uma senhora decrépita que sabe mais do que parece. Pois na festa natalina do filme de Selton todos estão bêbados, e há uma senhora decrépita, a matriarca, vivida magistralmente por Darlene Glória. Também há seu ex-marido, vivido por Lúcio Mauro. Sensacional é a briga do casal em meio à festa. No seio familiar, Paulo Guarnieri e Graziella Moretto vivem um casal em crise.
Mas dera aqueles azedos e infelizes frutos, sem capacidade sequer para uma boa alegria. Como pudera ela dar à luz aqueles seres risonhos, fracos, sem austeridade?
Não é um filme de ações, mas de silêncios. A família desestruturada recebe a visita desse irmão, misterioso, e aos poucos FELIZ NATAL elucida o que houve com ele no passado. Selton Mello demonstra talento na direção de seu elenco, e é louvável o fato de ele tirar do ostracismo atores competentes. Um desses, em participação especial, é Emiliano Queiroz, que tem uma bela cena em um cemitério. Contudo, um filme não depende apenas de atores. Ainda que cercado por uma excelente equipe técnica – basta dizer que Lula Carvalho faz a fotografia –, FELIZ NATAL carece de alma. A opção pelo distanciamento, muito embora, contraditoriamente, em várias vezes a câmera mergulhe na face dos atores, afasta um aprofundamento nos personagens. Não há envolvimento. Pouco nos importamos com o que ocorre com cada um deles. Por conta disso, quase não reagimos. Percebemos a mão do diretor para tornar tal cena genial. Percebemos a mão do roteirista para tornar tal diálogo genial. Percebemos a mão do editor para transformar a montagem em algo genial. E a mão de todos esses é a de Selton Mello, que assina também o roteiro e a edição.
Enquanto isso, lá em cima, sobre escadas e contingências, estava a aniversariante sentada à cabeceira da mesa, erecta, definitiva, maior do que ela mesma. Será que hoje não vai ter jantar, meditava ela. A morte era o seu mistério.
Selton Mello disse que um filme dele sempre seria regado por expectativas. É verdade. O ator é um dos grandes nomes do cinema, sempre conseguindo um padrão de qualidade no que faz. Talvez por isso tenha me decepcionado com o resultado final de FELIZ NATAL, um filme que poderia ter sido tocante, terno, mas que resulta frio, vazio, estiloso, pretensioso. É o típico experimental que parece morrer no meio do caminho. E a cena final, absurdamente desnecessária, parece querer acentuar a decrepitude já notória daquela família.
E de súbito a velha pegou na faca. E sem hesitação , como se hesitando um momento ela toda caísse para a frente, deu a primeira talhada com punho de assassina.
Em tempo: é por conta deste filme que o ator Pedro Cardoso fez seu manifesto em defesa da “honra” das atrizes brasileiras, contra o nu gratuito em cena. A defendida, no caso, é Graziella Moretto, sua namorada. Em primeiro lugar, é tão machista a atitude de Cardoso em defender quem sabe falar que Selton Mello nem precisava responder. Mas respondeu muito bem. A cena em que aparecem os seios de Moretto não é gratuita, e é bem poética até. Se não fosse um ator cool como Pedro Cardoso ter falado o que falou, tal comentário infeliz seria motivo de chacotas. Como veio do Agostinho Carrara, teve gente defendendo…
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
Mande um mail para o autor | Todos os artigos de Paulo Ricardo Kralik Angelini
Comentários
Sem comentários para “BEING SELTON MELLO”
Deixe um comentário