Ao assistir a CONTRATEMPO, filme de estreia na direção da atriz Malu Mader, ao lado de Mini Kerti (produtora do belo SOCORRO NOBRE, de Walter Salles), é impossível não se comover. O filme é uma apaixonada declaração de amor: à Música, ao Rio de Janeiro, aos ilustres compositores brasileiros. E quase um alerta, comovido e comovente: olhem para uma parte enorme da juventude deste país.
CONTRATEMPO é, sobretudo, uma enorme lição de solidariedade, momento de comunhão absoluta entre jovens aprendizes da música, as diretoras do filme e seus produtores, João Moreira Salles e Maurício Andrade Ramos. Para quem está por dentro dos “bastidores” do nosso Cinema, basta destacar a fotografia de Flávio Zangrandi e a montagem de Sérgio Mekler, dois bambas em seus ofícios. Feito este necessário “prólogo”, vamos à obra.
Desde a escolha do título, passando pela seleção das locações, enquadramentos, músicas, tudo em CONTRATEMPO é de uma delicadeza cativante. Há depoimentos tão verdadeiros quanto chocantes, como o de Leandro Serizac (jovem adotado por família estrangeira, cujo pai muito o maltratou), revelando umas tantas vezes nas quais os jovens amantes da música precisaram optar entre sua vocação, o desamor e a violência rondando tão perto – a maioria vive em morros cariocas… Bastas vezes, as lágrimas chegam aos olhos, mas não há pieguismo nas cenas. No mais das vezes, é possível observar, por quase todos os lugares onde trafegam os jovens, a presença constante de uma televisão e marcas de cartões de crédito e de outras iguarias da indústria do consumo. A ambiência favorece a visão desse contraste, sempre injusto, onde tantos têm tanto e muitos (mesmo com merecimento natural e talento visível) têm pouco. Ao mesmo tempo, é lindo ouvir as notas de ‘Garota de Ipanema’ ecoando num bairro da periferia – nada mais carioca que ouvir Tom Jobim e Vinícius de Moraes num filme ambientado no Rio – ou o magistral Corcovado de Tom. Uma glória a inclusão dessas duas pérolas de nosso cancioneiro no filme! Aliás, todo o repertório revela fina sensibilidade, e destacamos a delícia de conhecer grupos como o Grota do Surucucu, de Niterói, e o Filhos da Marta, do morro entre Botafogo/Humaitá, além da beleza da romântica música “A Gente”, do jovem Pedro Nascimento…
Essas nuances contribuem para tornar CONTRATEMPO uma obra para ser vista e apreciada não apenas por músicos e/ou amantes da boa música, mas por quem quer que tenha interesse por qualidade de vida, fraternidade, dias melhores para quem vive/sobrevive fazendo Arte, mesmo em condições tão precárias e adversas.
Malu Mader e Mini Kerti estão de parabéns por terem conseguido fazer um filme de rara beleza, amplo alcance e longevidade atemporal. As duas conseguiram fazer de um tema simples e hoje corriqueiro nas grandes cidades do mundo – os projetos sociais – um manancial relevante e pertinente sobre a vida a se erguer carente, injusta e deficitária, cotidianamente, ao nosso redor, pelos muitos subúrbios e periferias abandonadas do país. Ao terminar o filme, o espectador entende o verdadeiro sentido do título. E, mais uma vez, a emoção domina. Malu e Mini propiciam, através de belas imagens e depoimentos simples e tocantes, uma reflexão involuntária sobre o país que estamos (?) deixando que se erga em volta de nós.
Vendo aqueles jovens transportei-me a algumas sábias palavras do saudoso e querido cronista Artur da Távola, a quem por certo pareceria, esses jovens estarem descobrindo que “compartilhar é a mais feliz experiência e que o mundo só será possível se os homens tornarem a vida uma tarefa de todos. [...] os sons daqueles jovens trouxeram, sobretudo, uma fé que surge como pacificadora e não como justiceira. Como igualitária e não como massificadora. Como certeza de que a vida tem um fluxo, um sentido e uma direção e só quem a descobre, sente ou percebe, consegue transformar-se em consonante com o que é cósmico e universal”, como ele sintetizou em Ainda Existem Crianças Cantando (livro Alguém que já não fui, ed. Salamandra).
Ao mesmo tempo é possível sintonizar a influência direta, decisiva e benéfica de João Moreira Salles na direção. Quem viu NÉLSON FREIRE e NOTICIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR, dois documentários antológicos de Joãozinho, sabe do que estou falando. É como se Malu/Mini estivessem a trilhar, naturalmente, com seu olhar e atitude femininos, caminho análogo ao de João – como se Malu fosse o João de ontem ou como se o João de hoje fosse a Malu de amanhã.
Oxalá esteja eu certa e as belas sementes espalhadas por João Moreira Salles frutifiquem cada vez mais, disseminando para o cinema documental um viés rico, poderoso, afetivo e necessário, como necessária é a existência da VideoFilmes (instigadora, propulsora e fomentadora) no hoje tão diverso e rico panorama do Cinema Brasileiro.
Aurora Miranda Leão - Cosmopolita por vocação, nascida em Fortaleza e carioca por opção, é bacharel em Comunicação Social pela Universidade Federal do Ceará, onde faz atualmente Pós-Graduação em Audiovisual em Meios Eletrônicos. É também atriz, documentarista, produtora cultural e radialista. Filha do crítico de cinema, LG de Miranda Leão, cultora de Vinícius de Moraes, adora Paralamas do Sucesso, torce para o Boca Juniors, é encantada por Paris e Buenos Aires, ama o Rio de Janeiro, é adepta das festas populares do Maranhão e apaixonada por dança.
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