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categoria: 2009

GIGANTE, PERO DULCE

Um calor senegalês na chique serra gaúcha. Ainda assim, algumas senhorinhas desfilaram com seu casaco de pele, afinal, “na sombra tá friozinho…”. Então tá.

Gramado está com muito mais turistas pelas ruas. Uma grande movimentação ali na esquina… quem serão os astros do cinema? Humm… Max e Flávio do Big Brother. Ok, ok. Mas gostei do Max: o cara tem um milhão e vem para o meio da multidão, na boa.

Enfim.

É de Festival que se quer falar. Último dia da mostra competitiva. Último filme estrangeiro, e é uma despedida em grande estilo. Literalmente, GIGANTE, filme uruguaio do jovem diretor argentino Adrián Biniez (o cara tem trinta e poucos anos), vencedor de três importantes prêmios no último Festival de Berlim (Grande Prêmio do Júri, Prêmio Especial Alfred Bauer e Melhor primeira produção).

Jara é segurança de um supermercado. Passa seus dias sem muito o que fazer: no trabalho, espiando as imagens vindas das câmeras de vigilância e tomando seu mate; em casa, jogando playstation com o sobrinho, já que ainda mora ainda com a mãe e a irmã. Seus dias entediantes ganham um pouco de cor quando ele descobre uma atrapalhada funcionária da limpeza. O interesse ganha ares de obsessão, e o segurança começa a perseguir todos os seus passos, eliminando, com algum humor negro, alguns oponentes que aparecem pelo caminho.

É quase o amor da bela e da fera, mas em versão menos glamorosa: nem a bela é tão bela, já que é solitária e passa seus momentos de lazer em uma lan house, batendo papo na internet à procura de um relacionamento; e nem a fera é tão fera, pois todos o veem como um bom coração. Ambos nada têm aparentemente em comum, a não ser a solidão e o gosto por rock pesado.

Há cenas divertidas, por conta da falta de jeito do segurança em cortejar a moça. O filme é propositadamente lento, compactado a partir de silêncios, vazios, pois destaca o ritmo monótono daquelas vidas sem rumo, lembrando bons filmes americanos independentes que trataram de personagens similares, como GARÇONETE e POR UM SENTIDO NA VIDA (THE GOOD GIRL). É uma obra crua, com muitos planos abertos, o que acentua a pequenez dos personagens, mesmo que gigantes. Gigante mesmo é Horacio Camandulle, excepcional ao conseguir transmitir, concomitantemente, doçura e sisudez em um papel que poderia tornar-se tragicamente caricato.

Uma boa sacada do filme é que Julia, a moça da limpeza, é praticamente uma desconhecida para o público, que a vai descobrindo juntamente com o protagonista. Só ouvimos sua voz na última cena que, coincidentemente, remete ao final do também ótimo LA TETA ASUSTADA. Esses dois latinos, aliás, fizeram bonito na Alemanha, e devem arrebanhar alguns bons kikitos.

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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