Falta muito, muito mesmo, para que VILLA (favela, em espanhol) chegue aos pés de um CIDADE DE DEUS. A comparação é inevitável por conta das decisões estéticas e de roteiro. Vejamos:
as entranhas de uma favela são expostas no filme, com direito à narração em off, com curiosidades e explicações sobre o ambiente;
as histórias de três amigos da favela são recheadas de aventuras com a polícia;
a edição inicial mistura os créditos com cenas banais da favela, com uma trilha forte, uma espécie de samba-eletrônico;
cada batida da trilha traz uma cena, em uma montagem realmente picada;
a câmera nervosa;
o olhar amedrontado da população classe média baixa que mora ao redor da favela.
Dirigido pelo jovem Ezio Massa, de trinta e poucos anos, VILLA conta a história de três amigos:
Freddy (Julio Zarza), Lupin (Fernando Roa) e Cuzco (Jonathan Rodriguez), oriundos de uma classe paupérrima, moradores de barracos ou de rua, que têm em comum o amor típico pela seleção de futebol da Argentina.
O período é a Copa do Mundo de 2002. Os três tentam conseguir uma televisão para assistirem ao jogo durante a madrugada (era o torneio da Coréia do Sul e do Japão). O filho de peruanos, que carrega o estigma de tal, mas nascido na Argentina, Cuzco, consegue um aparelho velho, que é destruído por Lupin. Depois do incidente, cada um resolve a sua maneira descolar um televisor para ver a partida da equipe argentina: Freddy invade uma loja de eletrodomésticos; Lupin assalta um homem, rouba a sua roupa e, bem vestido, vai a um bar que transmite a partida; Cuzco, finalmente, vai à casa de uma velha senhora a quem havia ajudado no supermercado.
A boa edição do filme mescla as cenas de angústia do povo argentino pelo gol que nunca saía com a tensão crescente da “invasão” dos três amigos: uma pequena multidão na vitrine da loja invadida por Freddy chama a atenção da polícia que vai ao local; Lupin ajeita o revólver quando percebe que dois policiais entram no bar onde gastou um valor que não pode pagar; o canivete do pequeno Cuzco é acionado, para desespero da boa velhinha que o acolheu em sua casa.
A atuação dos atores é boa, pois todos convencem no papel de excluídos, marginalizados. Há cenas gratuitas, que tentam, de certo modo, glamorizar a violência. O roteiro, porém, não alça grandes vôos. Fica uma sensação de que havia um bom argumento que não foi explorado a contento.
A Buenos Aires que aparece é outra. A bela capital argentina não está em cena, mas sim a sua periferia. Para quem conhece a cidade, quando se vai ao aeroporto internacional, há uma bela igrejinha no meio do caminho, na auto-estrada. Pois é por aquelas bandas que surge uma gigantesca favela, com suas artérias expostas a lembrar as nossas, brasileiras. Contudo, é justamente este o maior pecado do filme: para que mostrar a favela se o filme é todo ao seu redor? Para que aquela narração em off? Em CIDADE DE DEUS, a favela era o maior dos personagens. Aqui, em VILLA, não.
A favela que surge é quase enfeite, cenas cotidianas que não têm relação direta com o desenrolar da história, já que os personagens saem de lá para cometer as suas infrações.
De qualquer modo, chama a atenção em VILLA o seu virtuosismo e, principalmente, a abordagem social em um outro viés: nada dos belíssimos dramas humanos discutidos por uma classe média em decadência – que assistimos em diversas e geniais obras cinematográficas argentinas contemporâneas –, mas a agressividade e a crueza da camada mais pobre, escondida pelas circunstâncias, longe demais do look europeu do qual Buenos Aires tanto se orgulha.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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E aí Paulo Ricardo
Fiquei muito interessado em ver esse filme, já está nas locadoras?
Abraço!