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categoria: CINE EUA

REVOLUTIONARY ROAD: ESTRADA SEM VOLTA

Kate Winslet tinha um belo roteiro nas mãos. Tinha um ótimo diretor em casa. E um melhor amigo talentoso para convidar para juntos protagonizarem o filme baseado na obra Revolutionary Road, de Richard Yates. O diretor, e marido da atriz, Sam Mendes (do excelente BELEZA AMERICANA), conversou com Leonardo DiCaprio e acertou os detalhes daquela que seria uma das mais interessantes produções do ano: REVOLUTIONARY ROAD, com o infame título, no Brasil, de FOI APENAS UM SONHO.

 

O triste cotidiano das famílias do subúrbio norte-americano entra, novamente, em foco. Personagens que contemplam a sua pequenez em lente de aumento, ainda que representem, aos olhos do outro, um papel de perfeição e bem-estar, na típica construção da família americana classe-média.

 

A narrativa é fragmentada, intercalando o opaco dia a dia do casal com cenas do momento em que April conhece Frank Wheeler, cercadas de todo o frescor de uma promessa de felicidade. De início, uma maravilhosa cena em que se presencia um opressor DiCaprio sufocando uma histérica Winslet, em uma briga de arrepiar.

 

Falando nisso, é notável a entrega de Winslet e DiCaprio para os personagens. Os atores afirmaram que se provocavam ao extremo, nas filmagens, para potencializar a montanha-russa na relação dos sentimentos do casal. Contudo, o destaque absoluto é para Kate Winslet (Globo de Ouro de melhor atriz pelo papel), soberba na composição de sua April, doce e amarga, mas sempre inquieta, com olhos profundamente voltados para outro lugar, para outra coisa… mesmo que essa coisa não seja facilmente identificável.

 

Os Wheeler são “os caras”. Escolheram a casa mais bacana da Revolutionary Road e formam uma família digna de foto de revista. A felicidade é só um lado da perspectiva. Como aqueles bonecos de pano sempre a ostentarem um sorriso riscado de tinta, também eles se dão conta de que é preciso mudar. Frank odeia seu emprego e April odeia o fato de viver (e não fazer nada) com um homem que odeia o que faz. Porém, todos os que cercam o casal invejam aquela casca aparentemente modelar. É quando April ilumina-se com uma ideia que pode revolucionar suas vidas e, de certa forma, a dos demais. Sim, pois em certas ocasiões, todo um sistema parece estar engrenado na dependência de uma espécie de mediocridade coletiva. Basta um querer quebrar a cadeia para que todos se assustem com a provável mudança.

 

Além da ótima dupla central, REVOLUTIONARY ROAD conta com um elenco de coadjuvantes de primeiro nível: Michael Shannon (Indicado ao Oscar de ator Coadjuvante), filho mentalmente perturbado de uma inspirada e sempre competente Kathy Bates, está ótimo, assim como o colega de trabalho Jack (Dylan Baker, de FELICIDADE) e os vizinhos e melhores amigos Joe (David Harbour) e Milly (Kathryn Hahn), que conseguem ser ainda mais medíocres que o casal ao lado.

 

Indicado ainda ao Oscar de Melhor Direção de Arte e ao de Figurino, merecidamente, toda a concepção visual de REVOLUTIONARY ROAD trabalha com pequenos quadros, quase retratos que testemunham aquele “american way of life”, fotografias pálidas e sem vida, representativas do vazio que representam. Ironicamente, as cores tom pastel, branco, preto e cinza ganham o reforço da cor quente no final, em uma das mais belas e vigorosas cenas do filme. Juntamente a esse capricho visual, uma trilha sonora que aposta no jazz, evitando os clichês da época, dando o ritmo certo a esse maravilhoso drama psicológico, que cutuca justamente aqueles que conseguem se perceber como seres potencialmente capazes, mas que muitas vezes desperdiçam este potencial quando assumem tarefas sociais e agem de acordo com o status quo. Parece pouco, mas não é.   

 

  

 

 

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

2 comentários para “REVOLUTIONARY ROAD: ESTRADA SEM VOLTA”

  1. fiquei chocada com o titulo que deram pro filme Revolutionary Road no Brasil. Quem afinal eh responsavel por isso? Acredito que “Rua dos Revolucionarios” caberia muito bem porque contem traducao de sentido. Eles foram (ou tentaram ser) os unicos “revolucionarios” da rua.

    Posted by Ellen Belchior Rodrigues | February 15, 2009, 3:47
  2. ela na verdade tentou buscar algo que nunca conseguiria, e ele, sob pressão da sociedade, se manteve em sua posição. Eles não foram os “revolucionários”, porque ela morre no final, fruto de seu próprio egoismo, com o qual conflita com a sociedade, mas é uma estrada sem volta sim, na qual mostra que tentar fugir dos parametros societários pode ser perigoso se for sem o auto-conhecimento.

    Posted by Rodrigo Almeida | April 7, 2010, 1:46

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