FATAL, com direção de Isabel Coixet, inspirado na novela O animal agonizante, de Philip Roth, retrata os sentimentos e inseguranças de uma paixão avassaladora entre David Kepesh, crítico cultural e professor de literatura de uma faculdade em Nova Iorque, vivido por Ben Kingsley, e sua ex-aluna Consuela Castillo, linda jovem cubana criada nos Estados Unidos e acadêmica dessa faculdade, interpretada por Penélope Cruz.
Com a intenção inicial de ter apenas uma noite de prazer com Consuela, David a encanta e a seduz. Entretanto, traído pelo seu desejo, o professor, que repudia a idéia de ter algum relacionamento sério e comprometido, separado há muito tempo de sua ex-mulher com quem teve um filho e os abandonou, partindo, desde então, para encontros amorosos descompromissados, começa a encontrar com freqüência sua ex-aluna e se descobre por ela perdidamente apaixonado. A partir daí, surgem os conflitos que começam a persegui-lo.
Apresentando um bom roteiro, ainda que algumas vezes as cenas sejam um pouco previsíveis, o filme tem uma delicadeza de interpretação dos atores e diálogos de extrema sensibilidade que conquistam o espectador. Em relação à construção da história, vale ressaltar a reviravolta que o filme traz num determinado momento em que as incertezas do professor em apostar numa relação com Consuela, jovem de beleza impactante e trinta anos mais nova, simplesmente perdem o sentido e a razão de ser. Percebe-se, a partir deste ponto, algumas desconstruções de paradigmas hipoteticamente absolutos nos quais o personagem, David, justificava suas ações e escolhas até então.
Em última análise, o filme retrata a facilidade deste acadêmico bem-sucedido em se manter no ponto de equilíbrio e na sua zona de conforto ao levar a vida de forma sistemática, regrada e metódica na ausência de uma paixão, e como a chegada desse sentimento, já na sua “maturidade”, pode abalar toda essa pseudo-segurança e tranqüilidade. Ao mesmo tempo, questiona até que ponto ele quer sair dessa zona de conforto e encontra motivos para não embarcar neste sentimento.
Outra marca do filme é traçar um paralelo entre a finitude e os prazeres do ser humano nos seus mais variados aspectos. Em uma passagem da narrativa, há uma discussão sobre obras de arte como objeto de desejo e admiração, oportunidade na qual um dos personagens, após fazer suas considerações e apreciações a respeito da obra em si, questiona a serventia de se ter a propriedade de uma obra de arte, já que o objeto vai perdurar além da existência de seu dono. Mostra, desta forma, que este “poder” sobre a obra de arte é meramente ilusório, visto que, em algum momento, essa permanece e o seu detentor, não. Abstraindo o lado filosófico da finitude versus poder, talvez essa passagem tenha sido uma grande metáfora a respeito da própria trama e certamente um dos pontos altos do filme.
Apesar de FATAL apresentar um drama de amor aparentemente simples e com alguns momentos de previsibilidade, o filme consegue conquistar o público pela delicadeza da atuação dos atores e pela bela construção dos diálogos, sinceros e fluídos. Tanto assim que os questionamentos retratados, muito provavelmente, ultrapassam os limites da sala de projeção e acompanham os espectadores por mais alguns momentos.
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