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categoria: CINE EUA

ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA

O sinal verde acendeu-se enfim, bruscamente os carros arrancaram, mas logo se notou que não tinham arrancado todos por igual. O primeiro da fila do meio está parado, deve haver ali um problema mecânico qualquer, o acelerador solto, a alavanca da caixa de velocidades que se encravou, ou uma avaria do sistema hidráulico, blocagem dos travões, falha do circuito eléctrico, se é que não se lhe acabou simplesmente a gasolina, não seria a primeira vez que se dava o caso. Alguns condutores saltaram para a rua, dispostos a empurrar o automóvel empanado para onde não fique a estorvar o trânsito, batem furiosamente nos vidros fechados, o homem que está dentro vira a cabeça para eles, a um lado, a outro, vê-se que grita qualquer coisa, pelos movimentos da boca percebe-se que repete uma palavra, uma não, duas, assim é realmente, consoante se vai ficar a saber quando alguém, enfim, conseguir abrir uma porta, Estou cego.

 

Ensaio sobre a cegueira, obra do português José Saramago, é para muitos seu último grande livro. Nesta obra, filosófica até a raiz, há uma estranha epidemia que deixa toda uma população cega, em um país pequeno, não-nominado, na Europa. Para resolver a situação, o governo resolve confinar as vítimas.

 

Ainda que Ensaio seja talvez uma das obras mais pop de Saramago, com ar de thriller psicológico, muitos duvidavam de sua transposição para as telas do cinema. Saramago negou o pedido durante anos, pois achava sua história metafórica demais para ser representada em imagens e ação. Coube a um brasileiro emocionar o grande escritor que tanto nos emociona. É tocante o vídeo, disponível no You Tube, que exibe o acender das luzes da mostra especial que Fernando Meirelles fez de BLINDNESS ao escritor. O silêncio é interrompido por um Saramago de voz embargada que diz: “Fernando, estou tão feliz por ter visto este filme, como quando estava quando terminei de escrever o livro”. Melhor elogio não há. A cara de faceirice de Meirelles é das coisas mais bacanas de se assistir.

 

Também pudera. Fernando Meirelles conseguiu manter viva a essência do belo romance, construindo um filme seu, obviamente uma outra obra. E esse filme seu tem cinco pontos extraordinários: a direção com mão segura de Meirelles; o roteiro, adaptado do livro, de Don McKellar (que também vive o Ladrão); a maravilhosa fotografia esbranquiçada de César Charlone; a edição de Daniel Rezende, e a entrega visceral de Julianne Moore, que faz a mulher do médico.  

 

Estamos todos cegos. Quase todos. Ricos e pobres, ladrões ou heróis. Na obra de Saramago, os personagens não possuem nome próprio. Não possuem uma identidade diferenciada. Não há nomes específicos, porque são personagens que representam todos e qualquer um.

 

A epidemia agiganta-se. E o que se faz quando surge uma epidemia? Confinamento. Ao contrário da cegueira escura, aqui temos uma cegueira branca, de uma claridade que ofusca. Inúmeras interpretações podem ser tiradas apenas disso: temos tudo, vemos tudo, extrapolamos todos os nossos sentidos em direção a nosso mundo contemporâneo, mas o que, de fato, temos em nossa essência?

 

Somos seres primitivos. Talvez essa seja uma das maiores evidências na obra de Saramago e de Meirelles. Quando são enviados a um sanatório, com forte vigilância militar, os novos cegos, pouco a pouco, começam a reunir-se em grupos, em castas, em tribos. E cada tribo tem seu líder. Há o médico, personagem importante, espécie de representante da ciência, vivido por Mark Ruffalo (ZODÍACO, DE REPENTE 30), que representa a democracia e é eleito líder. Há o inimigo próximo, Gael García Bernal (BABEL), que revive o absolutismo e se declara rei (da ala 3). A comida é escassa e a sua tribo (os malvados) apodera-se dos alimentos, cobrando o que lá houver: jóias, objetos e, mesmo, sexo.

 

Maravilhosa a cena em que as mulheres, enfileiradas, encaminham-se para serem possuídas em troca da comida. Os bárbaros, ali, homens primatas, resfolegam em cima delas, na cegueira em que vivem. Além disso, o caos da cegueira provoca a sujeira, o empilhar das fezes, o cheiro de urina, o caos animalesco que a falta de visão provoca no confinamento.

 

A verdadeira líder do batalhão do bem é a Mulher do médico, vivida pela maravilhosa Julianne Moore. A peste não chegou para ela. Contudo, para não ficar separada de seu marido, a Mulher finge que também está cega. Assim, ela pode guiar os seus amigos: a rapariga dos óculos escuros (Alice Braga), o velho da venda preta (Danny Glover), o primeiro cego (Yusuke Iseya) e a mulher do primeiro cego (Yoshino Kimura); lutar contra o inimigo (ela mata o Rei da Ala 3), ser os olhos e a consciência do grupo.

 

Quando o bando finalmente consegue escapar do confinamento, pois mesmo os guardas já haviam sido afetados e abandonado o lugar, há uma espécie de peregrinação rumo ao paraíso. Eles não vêem, mas a Mulher do médico relata o que vê, uma cidade destruída.

 

Filmado em São Paulo e Montevidéo, assistimos a uma paisagem familiar, transformada por placas de trânsito em inglês. Obviamente que a obra de Meirelles não consegue captar todo o ritmo alucinante da de Saramago. É um tanto apressado todo o processo de confinamento. Não há tempo para aprofundamento psicológico de personagens secundários importantes, que no livro possuem maior destaque, como a Rapariga de óculo escuros.

 

Uma matilha de cães devora um homem.

 

Carros virados, pessoas mortas, cães comendo defuntos – pois não há comida para os humanos, logo não há lixo. O que poderia, nesta parte, transformar-se em mais um filme de zumbis, de mortos-vivos, é encenado com delicadeza por Meirelles.

 

O grupo ruma em direção à casa do médico. A mulher, desesperada, encontra um cão – o cão das lágrimas, e desespera-se frente ao carinho do bicho, pois ele também enxerga. E lambe as suas lágrimas. Ele a vê, pois a Mulher do médico está invisível há muito tempo.

 

Quando encontra um supermercado, a Mulher decide descer ao subsolo, onde encontra uma espécie de despensa. Lá, também a platéia fica cega. A tela fica negra, somente o som dos movimentos da Mulher, que cheira, que toca, que mexe nos produtos até encontrar um fósforo.

 

O céu era, todo ele, uma única nuvem, a chuva desabava em torrentes.

 

A cena da chuva também é belíssima. Uma catarse coletiva, o banho para limpar o sofrimento

dos últimos meses. Mais tarde, as três mulheres banham-se como musas de uma obra clássica. Limpam-se. Purificam-se.

 

Não há explicações científicas para a cegueira, nem para o seu fim. Meirelles consegue colocar isso na tela sem que o público encare o fato como uma solução simplista. Apenas é o que é. Tudo pode ter o seu recomeço.

 

A mulher do médico levantou-se e foi à janela. Olhou para baixo, para a rua coberta de lixo, para as pessoas que gritavam e cantavam. Depois levantou a cabeça para o céu e viu-o todo branco, Chegou a minha vez, pensou. O medo súbito fê-la baixar os olhos. A cidade ainda ali estava.

 

O branco domina a tela. A platéia é devolvida a seu mundo real. Não há epidemia de cegueira, por fim. Não mesmo?

 

  

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

10 comentários para “ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA”

  1. fiquei emocionada com o filme de Meirelles…na medida exata, sem tirar nem por, revelando uma sensibilidade inigualável.O livro também me tocou fundo.Não dá para deixar passar! Uma parábola sobre o amor, verdadeiro, de total entrega.Lindo demais!

    Posted by ivone | September 18, 2008, 14:52
  2. Paulinho, encaminhei seu texto pro Meirelles.
    Achei muito bacana e sei o quanto você tem ligação com a obra do Saramago, conhece seu universo e te agradar é um sinal importante.
    Abraços, Lucas

    Posted by Lucas Gonzaga | September 24, 2008, 15:49
  3. O Filme não tem nada de sutil. Ele joga uma situação irreal no colo do expectador. São duas horas de obviedade e falsa moral para um público que não precisa tomar as suas próprias conclusões. Estou escrevendo isso para que pessoas normais não sejam enganadas com um mico de filme.

    Posted by Inacio | September 25, 2008, 23:30
  4. Essencial comentário sobre a condição humana e as decisões que tomamos em situações extremas.

    A multiplicação de imagens num mundo cego aos siginificados, produzida pelos jogos de espelhos é algo fantástico e a representação dos refugos do homem (maldade, medo, dúvidas, desesperança, fezes, apatia) é visceral e bem conduzida. Excelente filme.

    Posted by Leo Mendes | October 18, 2008, 17:12
  5. Infelizmente tenho uma triste opinião. Eu odiei o filme, achei que a traição que a mulher sofreu do marido e da “prostituta” foi algo que podia passar. Mas infelizmente de um diretor brasileiro pode esperar o que?
    Porque todo diretor brasileiro tem que por sexo no meio do filme e mulheres de peito de fora???
    Achei o filme fora da realidade , podia ser ter sido dirigido pelo diretor do filme Eu sou lenda com will smith…

    O filme foi na verdade um fiasco , para não dizer outra coisa!!!!

    Posted by Bruno | November 17, 2008, 9:22
  6. Eu adorei o filme, achei simplesmente lindo a moça ter dedicado parte de sua vida, para cuidar daqueles enfermos cegos, sofrido no supermercado atrás de comida para ela e todos os outros, amado o marido mesmo sabendo que ele o traiu. Nem todo mundo tem pulso e coração pra isso. Em relação a traição, é normal isto acontecer NO BRASIL OU NÃO, achei legal o diretor de colocado isto. O mais bonito de tudo foi o final, onde eles começam a enchergar novamente a vida e tudo parece começar a voltar o normal. Os meus parabéns vai destinado ao diretor criador do filme, o mesmo foi extremamente LINDO.

    Posted by Marcus Loureiro. | November 26, 2008, 10:42
  7. Na verdade eu esperava mais do filme, mas na minha opinião o filme foi inferior ao anterior do mesmo diretor (o jardineiro fiel). O filme se torna obvio demais, apesar da idéia ser muito boa. O filme não acrescenta nada de novo no mundo da cinematografia. São duas horas cheia de clichês de filmes de presidido e de outros de catástrofes. A mensagem é muita bonita mas o invólucro infelizmente já é bem batido.

    Posted by Angelo | January 17, 2009, 15:07
  8. Mas que discussão mais sem pé nem cabeça nestes últimos comentários. O filme é pra ser entendido como uma metáfora. A mulher por ser a única que enxerga está numa situação diferente do marido, é como se ela tivesse deixado de ser ‘humana’ e passado a ser uma espécie de santa, assim seu marido já não a reconhece mais como ‘uma igual’ (ele inclusive reclama a respeito disso um pouco antes )e como ela havia de fato assumido esse papel ela toma para si a culpa pelo acontecido. A volta da igualdade só acontece depois que ele, o marido, a salva da turba no supermercado, mostrando que um continua precisando do outro.

    Posted by Atena | January 21, 2009, 9:58
  9. Quando assisti o filme me arrepiei com tudo que vi, e corri para a biblioteca ler o livro.Ao ler as primeiras página me deparei com o algo perecido com ” O pior cego é aquele que não quer ver” a pior cega era exatamente aquela que podia ver ou seja a mulher do oftalmelogista ela deu tudo e aguentou tudo pelo marido e o que recebeu em troca? Fernando meireles foi gentil, no livro é muito pior!!!
    Parabéns Fernando você soube mostrar de uma forma sutil a maldade humana.

    Posted by Fernanda | December 19, 2009, 15:42
  10. Sabe, ainda não consegui me recuperar do Saramago. Talvez nunca consiga. Que bom.

    Obrigada pela ajuda.

    Bj

    Posted by Edna | May 13, 2010, 1:36

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