Minha primeira reação ao descobrir o novo filme de James Cameron foi: “Grande bosta, um filme caro”. Meu desdém foi parido da boca de milhões de seres que gritavam a tudo e a todos o megaorçamento dessa super-produção (palavras engrandecedoras não faltam na descrição da obra). É insuportável ver indivíduos enaltecerem os gastos de uma película; não assisto a filmes porque são absurdamente caros ou baratos, mas porque estou interessado em uma boa história contada de uma boa maneira. O dinheiro que gasto no cinema não compra hiper-orçamentos; compra hiper-ideias (quando possível). Outra glorificação de gastos na sétima arte a qual presenciei ocorreu em PLAYTIME (1967), de Jacques Tati. A sinopse contida no verso do DVD louvava o fato de que esse era o longa mais caro que o cineasta francês filmou. Quando li isso, imediatamente pensei: “e daí?”. Pelo jeito, o endeusamento dos mega-orçamentos não é uma exclusividade do mainstream cinematográfico.
No entanto, percebi que pessoas ao meu redor e vários blogs os quais conheço começaram a exaltar AVATAR. Nesse momento, conscientizei-me de que era necessário assisti-lo, já que ele poderia ser muito mais do que apenas um mega-super-hiper-cifrão. E foi o que fiz. Quando cheguei ao cinema, após ter - felizmente - adquirido as entradas pela internet, deparei-me com a maior fila para adentrar em uma sala de projeção da minha vida; já fazia ideia do sucesso da película, mas nunca cogitei tais dimensões. Assim, a obra de Cameron, acima de ser a produção cinematográfica mais cara já realizada, é um longa para render demasiado-pleonasticamente muito - afinal, todo e qualquer pleonasmo é útil para enfatizar os interesses lucrativos do filme.
Como já esperava, deparei-me com um roteiro completamente fraco e clichê. A obra mostra, no ano de 2154, a exploração realizada pelos humanos em Pandora, uma das luas de Polifermo, o qual orbita Alpha Centauri. Os habitantes de Pandora são os Na’vi, humanoides azuis de três metros. Os homens estão lá em busca de Unobtanium, um mineral muito valioso. Na corporativa da população terráquea estão: Parker Selfridge (Giovanni Ribisi), o estereótipo do Porco Capitalista; Dra. Grace Augustine (Sigourney Weaver), o estereótipo de um indivíduo que vive para a ciência; Norm Spellman (Joel David Moore), biólogo que não é estereótipo de nada; Trudy Chacon (Michelle Rodriguez), o estereótipo da mulher-valentona; Jake Sully (Sam Worthington), personagem principal da película; e, finalmente, Coronel Miles Quaritch (Stephen Lang), o mais irritante dos estereótipos, o militar-machão-e-malvado.
Os pesquisadores criaram o Programa Avatar, o qual permite um humano controlar o corpo de um híbrido Na’vi. Jake é um ex-fuzileiro paraplégico que aparece na Corporativa dos Estereótipos a fim de conseguir financiamento para uma operação que curasse sua limitação. O protagonista acaba sendo convocado para encarnar o Avatar de seu falecido irmão gêmeo, devido às suas semelhanças genéticas que contribuiriam para o sucesso da substituição. O mocinho, ao utilizar o seu Avatar e adentrar em Pandora, acaba se perdendo do seu grupo e conhecendo a Na’vi Neytiri (Zoë Saldaña), a mocinha do longa que leva Jake ao seu clã e lhe ensina os seus costumes.
É justificável a superficialidade das personagens, pois o objetivo do filme não é criar uma singular personalidade para cada uma delas, mas sim mostrar, sob a perspectiva de Jake, a incrível Pandora criada por James Cameron. Os efeitos especiais são realmente magníficos; é belíssima a estética do longa, sendo que o 3D funciona excelentemente bem e colabora muito para o enriquecimento dela. No entanto, toda a beleza contida em AVATAR não foi suficiente para me conquistar. Isso ocorreu pois toda a pateticidade do roteiro levantou um muro entre mim e a tela do cinema, assim, fui incapaz de me extasiar com o belo visual da obra.
Obras que perturbam e ferem minha alma estão esmagando-me contra o solo. Ao ser comprimido, sinto-me vivo e é nesse ponto que reside minha paixão pelo cinema. Meus filmes prediletos são aqueles que, quando assisto, fazem jorrar da tela uma torrente de emoções que me envolve e acende em mim a luz de minha existência, tornando-me mais vivo naquele momento. Ao mesmo tempo em que esse pensamento explica meu fascínio por certas películas, ele ilustra meu desgosto por outras. Os longas que me provocam repulsa, em geral, são aqueles formados por uma natureza leve.
No caso desse longa, repulsa é uma expressão demasiadamente forte, pois ele não é inteiramente ruim. Além dos belos efeitos, as cenas nas quais James Cameron, com uma proximidade maior da câmera, mostra as dificuldades de adaptação de Jake em uma nova sociedade trazem um pouco de sensibilidade e realismo à obra - uma antítese dos obstáculos didáticos enfrentados pelo protagonista são os percorridos por Harry Potter quando o bruxo facilmente aprende a voar no hipogrifo em HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Alfonso Cuarón, 2004). A AVATAR as críticas ambientais, embora feitas de modo piegas, acrescentam certa cor. Entretanto, nem o ambientalismo, nem a beleza dos efeitos me conquistaram nessa película. A tão bem falada estética é, com toda certeza, absurdamente linda, até mais que a própria realidade, como afirmam alguns blogs. Mas essa harmonia que custou milhões praticamente não me atingiu; não senti minha alma ascender e acender; não senti minha existência mais real; não me senti extasiado com a formosura do filme.
AVATAR é um longa válido de ser visto, no entanto, está longe de ser uma grande obra. A película revela o seu melhor nas cenas que esboçam certa sensibilidade. Infelizmente essas são apagadas pelos pontos comuns e pelas seqüências piegas. A harmonia visual é tal que revela uma beleza tão incrível quanto leve, logo, a chama de minha existência foi ignorada nesse filme. A obra mais cara da história do cinema tem como objetivo não a arte, mas o dinheiro. Em suma, AVATAR é pipoca.
Daniel Brito - Um estudante de engenharia ambiental que tenta fugir do ponto comum que é viver em uma Alphaville.
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Cara, concordo com o roteiro fraquíssimo, principalmente quando a gatinha tira as lindas tranças e faz uma “chapinha” pra noite de amor tórrido.
Mas eu adoro pipoca