A cerimônia do 82º Oscar foi estranha. Chata como nunca, é verdade, mas dos males, o menor. Não ver James Cameron agradecendo e gritando “I’m the king of the world” é uma bênção.
Na luta hiperexplorada pela mídia Davi versus Golias, ganhou o filme de baixo orçamento GUERRA AO TERROR, confirmando o maior erro estratégico de distribuição da história no Brasil. Este Oscar vai para toda a “competentíssima” equipe da Imagem Filmes, que pensou, pensou e decidiu que o grande vencedor da noite do Oscar não merecia uma estreia no cinema. Lançou-o diretamente em DVD e, depois de tanto prêmio da crítica e da série de indicações ao Oscar, voltou atrás e lançou no cinema. Eu demitiria todo o staff, que entende tudo de mercado, e de cinema.
Enfim, GUERRA AO TERROR, que é um bom filme, mas nada de extraordinário também, fez o improvável: venceu o irritante Cameron e seu, diga-se, divertido mas vazio AVATAR. Não me venham com firulas de mensagens ecológicas, porque Xuxa sempre fez isso e nem por conta desse detalhe merece crédito. E convenhamos, a ingenuidade do roteiro de AVATAR é digna dos filmes de Xuxa.
Mas a cerimônia do Oscar foi estranha por ter premiado dois atores queridos, mas pouco brilhantes: Jeff Bridges e Sandra Bullock. Particularmente, admiro a carreira de Bridges e nunca gostei de Bullock, mas o que ela fez na cerimônia de entrega das Framboesas de Ouro (venceu como a pior atriz do ano) mostra um desprendimento e capacidade de rir da própria desgraça poucas vezes vista. Vá ao youtube e descubra o sensacional discurso de agradecimento que Bullock fez em carne e osso, na cerimônia das Razzies.
Estranho também por ter concedido dois merecidos prêmios a dois atores pouco conhecidos do público brasileiro. Christoph Waltz e Mo’Nique estão soberbos em BASTARDOS INGLÓRIOS e PRECIOSA, respectivamente, ganharam quase todos os principais prêmios e eram a barbada da noite.
Estranho positivamente ver um filme argentino ser premiado. Ainda que não seja o melhor do Campanella, O SEGREDO DOS SEUS OLHOS é uma obra excelente, e premia, de fato, a maravilhosa safra (há anos) do cinema do país vizinho. Que nos sirva de lição! Chega de enviar filmes que exploram favela ou violência, vendendo-os como exótico para os membros da academia. Não cola mais.
Fiquei triste por UP IN THE AIR não levar seu merecido Oscar de roteiro adaptado, mas PRECIOSA também é muito bom e mereceu. O prêmio para o roteiro original para GUERRA AO TERROR fica um pouco manchado pelas últimas acusações de plágio, pois o roteirista entrevistou um militar, que diz ter sua vida toda transposta para a tela sem ter sido creditado.
UP venceu dois, e mereceu. É uma das melhores animações dos últimos tempos, um filme realmente tocante. Estranho e bacana foi a classuda Kathryn Bigelow receber o primeiro Oscar para uma diretora, e talvez este seja o prêmio mais merecido de todos do filme, pois foi ela quem conseguiu vender a ideia para financiadores estrangeiros depois de uma verdadeira guerra psicológica. Vale lembrar que um AVATAR faz mais de 15 GUERRA AO TERROR.
Pena Tarantino ter saído apenas com um premiozinho, já que seu filme merecia melhor sorte, como não ter caído em um ano de briga de ex-marido e ex-mulher.
Grande momento foi Ben Stiller de N’avi. Bacana a homenagem para John Hughes. Bah, este cara tem clássicos adolescentes! Quem viveu, sabe. E muita sessão da tarde também. A homenagem aos filmes de terror foi uma tentativa de puxar o público adolescente Crepúsculo Harry Potter para o Oscar.
A nota chata da noite é a dupla de apresentadores absolutamente sem graça. Ainda que Alec Baldwin tenha garantido algumas risadas por conta de suas divertidas caretas, Steve Martin… ninguém merece. E o texto de ambos foi sofrível. A cara desesperada o-que-eu-faço-pelo-mainstream de Clooney era o retrato disso. Muitos também acharam uma chatice colocar aqueles atores para falar dos atores indicados. Eu confesso ter gostado imensamente, ainda mais vendo Michelle Pfeifer e Juliane Moore no palco. Chato mesmo, não adianta, são aqueles números musicais… E isso que esse ano não teve interpretação das canções.
Enfim, mais uma cerimônia que termina, menos uma noite para dormirmos de forma decente, não concordamos com uma série de vencedores, mas ficou um gostinho de vitória para quem torcia que AVATAR só fizesse sucesso mesmo na bilheteria. O bom cinema ainda pode ser feito sem orçamentos trilhonários. E no frigir dos ovos, quem diria, AVATAR foi o grande fracasso do ano!
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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