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categoria: CINEUROPA

VOLVER

(Volver, Espanha, 2006)
Direção: Pedro Almodóvar
Com Penelope Cruz, Carmen Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo, Chus Lampreave, Antonio de la Torre

 

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Andar por Madrid é também recordar dos filmes de Almodóvar, que tão bem leva a capital espanhola às telas. Mais que as ruas e seus monumentos turísticos, são as pessoas, as falas, os hábitos, as risadas dos madrilenos que nos lembram o diretor espanhol. Com uma produção cinematográfica em alta, a Espanha está representada por vários e bons filmes nos cinemas. Porém, o último Almodóvar, VOLVER, ainda está em cartaz na Espanha (desde março), e os pôsteres de Penelope Cruz, alguns já rasgados pelo tempo, espalhados por toda Madrid e Barcelona.

Muito já se disse que em VOLVER Almodóvar retorna ao universo feminino, já que em MÁ EDUCAÇÃO os personagens masculinos eram dominantes. Tanto isso é verdade que o elenco de mulheres (Penélope Cruz, Carmem Maura, Lola Dueñas, Blanca Portillo, Yohana Cobo, Chus Lampreave) ganhou prêmio de atuação no último Festival de Cannes. Uma decisão política, desde já se pode afirmar. É bem verdade que Almodóvar extrai uma atuação impecável de suas atrizes, mas era Penélope Cruz quem mereceria levar o troféu, porque o filme é dela, numa entrega impressionante e arrasadora.

Penélope sempre se saiu muito melhor nos filmes falados em castelhano. Desde que começou sua carreira hollywoodiana, a maior estrela do cinema espanhol da atualidade virou somente isso, uma estrela, famosa por seus affairs com galãs do nível de um Tom Cruise ou Mathew McConaughey. Mas aqueles que se lembram de uma magricela Penélope Cruz em BELLE EPOQUE ou JAMÓN, JAMÓN, quando tinha apenas 18 anos, sabem que ela sempre soube atuar. Obras como CARNE TRÉMULA, ABRE LOS OJOS, BLOW, NÃO TE MOVA trazem o melhor de Penélope. Contudo, nunca a atriz conseguiu ir tão longe como em VOLVER. Opulenta como uma jovem Sophia Loren (aliás, Almodóvar explora à exaustão os seios, em tomadas divertidíssimas, sempre em decote, e os lábios carnudos… a bunda teve um enchimento, pois esse não é o forte da atriz, segundo a própria), Penélope Cruz vai das risadas às lágrimas com uma facilidade espantosa. Belíssimas são as cenas em que ela canta um flamenco (dublado, é claro) e quando sai em disparada, depois de ver o “fantasma” da mãe. Uma atuação com o olhar é o que Almodóvar consegue, e Penelope, depois desse filme, sai-se como um dos olhares mais expressivos do cinema atual. Além do que a atriz nunca esteve tão bonita como com sua Raimunda, com seus penteados despenteados fazendo uma dona de casa/mãe sexy, batalhadora e que beira o histerismo.

A história todos já sabem: em Madrid, depois de um crime acidental provocado por Paula (Yohana Cobo, jovem atriz de 21 anos, em alta na Espanha, com dois ou três filmes em cartaz, que começa titubeante, com algumas cenas exageradas, mas consegue acompanhar o ritmo das mais experientes), Raimunda tem seu momento “Helena de Manuel Carlos” e assume o crime, protegendo a filha como uma leoa. Juntamente a isso, surgem, em La Mancha, os boatos de que o fantasma da mãe de Raimunda, Irene (Carmen Maura, impagável), está à solta.

A morte da tia (interpretada por aquela velhinha deliciosa, presente em quase todas as obras de Almodóvar, Chus Lampreave) na pequena aldeia faz com que Sole (Lola Dueñas, MAR ADENTRO e FALE COM ELA), irmã de Raimunda, volte à cidade e encontre-se com o tal fantasma. Completa o núcleo uma vizinha doente, interpretada por Blanca Portillo, em cartaz na Espanha com ALATRISTE, que investiga o sumiço de sua mãe, no mesmo dia em que Irene e o pai de Raimunda morreram num incêndio.

Rocambolesca ao extremo, VOLVER começa um pouco irregular, intercalando cenas divertidas (como a visita da família à velha tia) com outras com a mão pesada demais, até mesmo para um Almodóvar (a cena em que a filha conta à mãe sobre o crime beira o ridículo). Contudo, assim que Penélope assume um restaurante em Madrid e Carmen Maura entra em cena, o filme cresce e se torna delicioso.

La Mancha, a região imortalizada por Cervantes em Dom Quixote, a pouco menos de 200 km de Madrid, tem papel importante na obra. Os moinhos de vento do visionário Dom Quixote agora são aquelas pás modernas, brancas, mas estão na tela, a mostrar que a tradição não se apaga de todo, mas ressurge modificada. Metáfora comparável ao retorno de Irene, que surge de forma avassaladora na vida das filhas. Como num acerto de contas com o passado, as três, mais a neta, têm diálogos magistrais, mas é na seqüência em que Irene conta a Raimunda por que voltou que Carmen Maura e Penélope Cruz têm seu melhor momento juntas.

Os fantasmas não choram, diz, a certa altura, a personagem de Maura. E é nos caminhos entre o impossível e o verossímil que Almodóvar vai construindo esse pequeno grande filme, que vai perdendo os contornos de fábula onírica para ganhar um ar de comédia dramática de humor negro, com seus exageros peculiares.

VOLVER é o melhor de Almodóvar porque resulta simples e eficiente, mesmo com toda a embalagem kitsch que lhe é marca registrada. E o melhor de Almodóvar é justamente a habilidade que o diretor espanhol tem para construir pequenas histórias e a sua capacidade em extrair o melhor de seus atores. VOLVER é digno até no nome. Nem bem saímos do cinema, já pensamos em voltar a vê-lo.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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