Na dor das lembranças, o silêncio. Quantas vezes não calamos, ou mudamos o rumo de nossas conversas quando, de alguma forma, o assunto sobre o qual se discute não nos é confortável?
Victor (Hippolyte Girardot) estava obcecado com os silêncios de Rivka, sua mãe, e com as lacunas de sua própria história. Por conta disso, resolve ele mesmo investigar para ver se consegue preencher os tantos vazios que carrega. O passado de uma família materna judia não poderia ser tranquilo em tempos de Segunda Guerra, ainda que a mãe escondesse boa parte de suas dores.
Jeanne Moureau, ícone da cinematografia francesa, empresta sua voz rouca, suas feições ainda incrivelmente belas, sua presença elegante a uma personagem emblemática: uma viúva que, solitariamente, deixa a comida queimar enquanto espera a visita dos filhos. Filha de judeus, pouco fala sobre seus pais. E os seus filhos foram batizados. Católicos
A crueza da câmera do israelense Amos Gitaï (FREE ZONE) é percebida desde o início da obra. Ela é apenas testemunha daqueles seres. Por isso, a câmera atravessa paredes, divisórias, num vai-e-vem horizontal que tenta dissecar, distanciadamente, o apartamento da mãe e aqueles que por lá o visitam. É como se também a câmera fosse intrusa, e precisasse impor-se para tentar o registro.
Dessa forma, conhecemos a irmã (Dominique Blanc, em pequena participação), a esposa de Victor (Emmanuelle Devos) e os dois filhos pré-adolescentes, que se preocupam com sua dedicação quase que exclusiva para resolver essas questões.
A inicial cena traz uma televisão antiga – e sabemos que estamos por volta dos anos 80. Há o julgamento, em 1987, de Klaus Barbie, ex-chefe da Gestapo, “le boucher (o açougueiro) de Lyon”, famoso pelos crimes cometidos contra os judeus. Enquanto cozinha – e queima os alimentos – Rivka escuta, com indisfarçada atenção. O contraponto da cena é o filho, que também ouve pelo rádio o mesmo julgamento, enquanto literalmente junta as peças do quebra-cabeça de sua vida.
À medida que o filme avança, porém, quebram-se as barreiras entre o espectador e a história. O distanciamento óbvio e desejado acaba por dar lugar ao envolvimento. Talvez a cena que melhor represente essa ruptura seja a da vó com os netos na sinagoga. Com raro teor dramático, é nos cochichos de Rivka que o espectador percebe o medo, as frustrações, a tristeza, o passado doloroso daquela mulher.
PLUS TARD, TU COMPRENDRAS (MAIS TARDE VOCÊ VAI ENTENDER) é mais um título da recente safra de belíssimos filmes franceses. Cada vez mais, percebe-se uma humanização nas antes (acusadas de) verborrágicas, frias e distantes obras francesas. O cinema da França tem trazido, invariavelmente, o humano para dentro das telas. Muitas vezes um ser fragmentado, dilacerado, mas, por isso mesmo, completo em suas verdades.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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