(Salvador, Espanha, 2006)
Direção: Manuel Huerga
Com: Daniel Brühl, Leonor Watling, Joel Joan, Ingrid Rubio, Leonardo Sbaraglia, Mercedes Sampietro, Celso Bugallo, Carlos Fuentes
Salvador Puig Antich foi um jovem catalão revolucionário no tempo da ditadura de Franco. Foi preso, torturado, virou bode-expiatório e foi condenado à morte. O último a morrer no cruel garrote vil, na Penitenciária de Barcelona, próxima a Estação de Sants.
Adaptar uma história real para o cinema sempre é um perigo. A começar por que a platéia, em geral, já conhece o final. Pois Manuel Huerga encarou o desafio de escolher a história de um mártir catalão, uma espécie de herói local, um Che Guevara no imaginário da Catalunha. E saiu-se muito bem na empreitada.
Seu primeiro trunfo é o roteiro de Lluís Arcarazo (baseado na obra Compte enrere. La história de Salvador Puig Antich, de Francesc Escribano), que é muito mais centrado no lado humano do que no político. Toma partido e leva o espectador para dentro da história, com diálogos inteligentes e personagens muito bem construídos. Outro ponto fortíssimo da obra é o elenco, a começar pelo extraordinário Daniel Brühl (GOODBYE LENIN), ator nascido em Barcelona, que tem um desempenho sublime. Brühl encarna a jovialidade e suas inconseqüências de Salvador durante as reuniões clandestinas e a luta armada. Sua transformação, depois que é preso, é assustadora. Salvador sorri, a querer dar força para as irmãs que vêm visitá-lo, mas pelo olhar sabemos que nem ele acredita na sua soltura.
Brühl tem excelentes parceiros em cena. Leonor Watling (no Brasil, mais conhecida por FALE COM ELA), é a namorada. A ótima Mercedes Sampietro (LUGARES COMUNES) faz a mãe com delicadeza e fúria. Mas os coadjuvantes-destaques são dois atores de luxo: Celso Bugallo (MAR ADENTRO, LA NOCHE DE LOS GIRASOLES) e o argentino Leonardo Sbaraglia (PLATA QUEMADA). O primeiro compõe um pai silencioso. Ainda assim, tem uma das mais belas cenas do filme, quando está a assistir televisão e ouve a filha falar pelo telefone que não foi aceito o pedido de perdão a Salvador. O filho morrerá. O olhar perdido, nenhuma palavra, tudo diz. Já Sbaraglia é um carcereiro que se transforma durante o filme. Em princípio, é duro e chega a condenar o catalão através do qual a família se comunica com o preso. Porém, certa vez, lê uma carta de Salvador ao pai. É um dos grandes momentos do filme. Aquela carta, pura literatura, é a fala de Salvador a perguntar-se por que o mundo é daquela forma, por que lutar quando aquilo que se acredita pode levar à morte. É uma cena maravilhosa, de partir o coração. E o carcereiro Jesus também se compadece, ao ver ali um outro lado nunca antes percebido.
O filme cresce. Quanto mais se luta pela libertação de Salvador, mais tenso fica o clima. E por mais que saibamos que ele morreu, sim, a magia do cinema faz com que torçamos para que ele escape.
SALVADOR quase (eu disse quase, pois tinha um Almodóvar no meio do caminho) representou o país para concorrer a um Oscar de filme estrangeiro. Ficou entre os 3 mais votados pela academia espanhola. Um feito e tanto, pois é um filme barato comparado com os outros 2 que concorriam (além de VOLVER, o ALATRISTE).
Tive o privilégio de assistir a SALVADOR na estréia, em Barcelona. Lágrimas e soluços na platéia, alguns chegando a sair no meio da sessão, em prantos. Sem dúvida é uma história universal, mas bastou sair do cinema e passar frente à Penitenciária, logo ali, no coração de Barcelona, ainda ativa, quase a ouvir os gritos dos tantos torturados, para perceber o calafrio e entender a comoção que um filme desses pode causar.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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