(PRINCESAS – Espanha, 2005)
Direção: Fernando Léon de Aranoa
Com: Candela Peña, Micaela Nevárez, Mariana Cordero, Llum Barrera, Violeta Pérez, Monica Van Campen, Enrique Villén.
Com ar documental e com interpretações excelentes, PRINCESAS é mais uma mostra do bom cinema espanhol: produções despretensiosas que arrebatam, com destaque para uma boa história com atores competentes.
Caye tem quase trinta anos. É prostituta, apesar de não possuir o estereótipo para isso: é baixinha e atarracada. Esconde a profissão da família, composta por uma mãe desequilibrada (que envia flores e presentes para ela mesma) desde a partida do pai, um irmão e uma cunhada. Sua vida solitária se transforma quando conhece uma vizinha, Zulema, exuberante imigrante ilegal da República Dominicana, que também tenta a vida em Madrid como prostituta. Zulema trabalha mais na rua, numa praça frente ao salão de beleza de Gloria, reduto de prostitutas “finas”, ou que ao menos assim se consideram, enquanto Caye anuncia seus préstimos nos classificados dos jornais.
O filme de Fernando Léon de Aranoa (SEGUNDAS-FEIRAS AO SOL) encanta pela simplicidade. O drama das prostitutas ultrapassa os clichês típicos e atinge o espectador, que se identifica com a falta de perspectiva das personagens. É certo que as maravilhosas atuações, respectivamente premiadas com os Goyas de melhores atriz e atriz revelação, de Candela Peña (Caye) e Micaela Nevárez (Zulema), contribuem para o sucesso do filme. A candura de Zulema é um contraponto para a áspera Caye, que tem uma camada profunda escondida por atitudes superficiais, como sonhar em aumentar os seios. É da última, aliás, a idéia do título, quando diz que as princesas são pessoas tão sensíveis que ficam doentes quando longe de seus reinos. São frágeis, pois, essas princesas da Espanha. Junto a isso, a vida em uma Madrid subterrânea e movida a sexo destoa da idéia glamorizada com a qual a prostituição muitas vezes é levada às telas, vide UMA LINDA MULHER.
Só existimos quando há pessoas que pensam em nós, e não o contrário, diz a mãe de Caye, que também acaba reproduzindo essa filosofia de vida a todo momento. E é enfrentando as dificuldades típicas de qualquer pessoa (pagar as contas, encontrar um amor, sonhar com dias melhores) que a dupla se fortalece. A anulação de ser ilegal numa grande cidade européia também é muito bem trabalhada pelo roteiro, mostrando as barbaridades preconceituosas dos nativos com relação aos imigrantes.
Ainda que tenha algumas derrapadas, como por certas vezes o exagero filosofal da personagem Caye ou a vingança desnecessária típica de filme norte-americano de Zulema ao seu “torturador”, PRINCESAS é uma obra coesa. Apoiada em um ótimo elenco coadjuvante, com destaque para as prostitutas que freqüentam o salão de beleza, e com uma ótima trilha sonora assinada por Manu Chao (que também ganhou o Goya), PRINCESAS expõe uma Europa africana, latino-americana, asiática, uma Europa que mostra suas entranhas, longe da civilidade e da cidadania de primeiro mundo.
Há belas passagens que permanecem: as conversas telefônicas de Zulema com a família, o passeio das prostitutas numa limusine. Mas nada é mais forte do que os olhares de Caye e de Zulema, que emitem, ao mesmo tempo, o brilho da fera e o medo da presa.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Um dos melhores filmes espanhois que já vi fiquei completamente fixada na historia e a banda sonora é espectacular adorei e o seu comentario é excelente.