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categoria: CINEUROPA

PARA QUE NO ME OLVIDES

(Para que no me olvides, Espanha, 2005)
Direção: Patrícia Ferreira
Com Fernando Fernán Gómez, Emma Vilarasau, Marta Etura, Roger Coma, Víctor Mosqueira, Mônica Garcia.

 

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Como reagir frente à perda? Apagar todas as lembranças ou deixar os rastros ali, à vista, para que a dor aos poucos se acostume à rotina?

Há uma mulher. Ela é uma excelente professora de teatro para deficientes visuais. Extremamente carinhosa e sensível, Irene bloqueia quando chega em casa. Há outra mulher, anos mais jovem. Transpira vivacidade, mas não tem muitas ambições. Clara é caixa de um supermercado e é feliz ali, com sua amiga e colega de apartamento, Ana. Há um jovem estudante de arquitetura, David, aluno brilhante, que esconde um segredo: escreve as histórias que ouviu de seu avô para que elas nunca se percam. Há um homem, já idoso, ainda lúcido, que transita pela casa e tenta ligar as pontas desatadas entre Irene, o filho dessa, David, e a sua namorada, Clara. Chama-se Mateo e desde a infância do neto tem o hábito de contar histórias.

PARA QUE NO ME OLVIDES, obra de Patrícia Ferreira, monta um delicado painel de uma família aparentemente ajustada, mas que na prática apresenta pequenas lacunas que ameaçam ruir. O alicerce dessa família é o velho Mateo (o ator-instituição Fernando Fernán Gómez, em mais um desempenho notável), mas sua (frágil)idade, ele que é o alicerce, pode fazer tudo desabar. Ainda assim, é o mais forte da casa, pois sua filha, a comunicativa Irene, simplesmente não mais consegue dialogar com o filho dela, desde que esse decidiu namorar a caixa de supermercado. Belíssima é a cena em que Clara conta a Mateo que pouco sabe da história do namorado, que pouco fala de si, só conta sobre o avô, que sofreu perdas irreparáveis com o franquismo. Em troca, Mateo começa a escrever a história de David, desde criança.

Mãe e nora não conseguem conviver. Confrontam-se: a primeira revelando-se preconceituosa, a segunda engolindo em silêncio os pequenos desaforos. Excelente o desempenho das duas atrizes. Emma Vilarasau compõe uma Irene contraditória na sua essência, e isso se mostra a todo momento. A atriz foi indicada ao Goya por seu papel e tem cenas de arrepiar. Marta Etura, também indicada ao Goya de coadjuvante, é uma parceira à altura para Vilarasau. Constrói uma Clara, não por acaso, luminosa, aberta, viva, e isso incomoda a “sogra”. Há cenas belíssimas, diálogos rápidos e longos silêncios entre ambas a revelar a ótima sincronia entre as atrizes.

Com sensibilidade, Patrícia Ferreira, também uma das roteiristas da película, consegue trabalhar com temas dificílimos sem nunca pesar a mão. E logo, logo, joga na cara do espectador uma grande reviravolta, que faz todos os personagens perderem o rumo. Impossível conter a emoção nesse filme que cresce de maneira arrasadora. Saímos do cinema a nos lembrarmos de pequenos grandes momentos: um abraçar de uma árvore, um passeio pela beira-mar, uma mordida numa maçã verde. E sabemos que todos eles são efêmeros. Acabam-se e só restam em fotografias.

PARA QUE NO ME OLVIDES é um grito, por vezes histérico, por vezes mudo, que transtorna justamente porque não sabemos como lembrar.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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