(Palais Royal!, França, 2005)
Direção: Valérie Lemercier
Com: Valérie Lemercier, Catherine Denéuve, Lambert Wilson, Denis Podalydes, Mathilde Seigner, Michel Aumont
Não querida… as tulipas não têm cheiro, diz a maravilhosa Catherine Deneuve, rainha de uma monarquia européia qualquer, para a simplória mulher do filho, em breve, rei do país, que se agacha para cheirar os bulbos de tulipa que ganhara.
Um filme que tenha Deneuve a representar uma rainha-má já vale o ingresso. Ainda que a atriz francesa desempenhe seu papel no piloto automático, suas caras e bocas frente às trapalhadas da futura rainha são de gargalhar. PALAIS ROYAL! teve sua pré-estréia no tradicional (e lotado) Cinema de São Jorge, na Avenida da Liberdade, em Lisboa, com a presença da diretora e atriz principal, Valérie Lemercier (RRRrrrr!).
Ainda um pouco desconhecida no Brasil, Lemercier subiu ao palco do São Jorge e agradeceu em francês a presença de todos. Divertida e simpática, fez umas graças na hora de sair do palco, o que já era um aperitivo para o que vinha na tela. Na França, Lemercier é conhecidíssima e muito premiada. Foi a partir da série televisiva Palace que esta comediante alcançou a popularidade. Hoje, quase vinte anos depois, a atriz contabiliza três Molière (prêmio máximo do teatro francês) e um César de atriz coadjuvante por OS VISITANTES. Com ares de Ilana Kaplan misturados com Rachel Grifiths, Lemercier é dona de seu filme, na atuação e na direção. Ela faz Armelle, uma fonoaudióloga casada com Arnaud (Lambert Wilson, MATRIX, GENTILLE, cinco vezes nominado ao Cesar), o filho mais novo e bon-vivant do Rei. Charmoso e popular, o príncipe quarentão tem como amante a melhor amiga do casal, a bela Laurence (Mathilde Seigner), que por sua vez é casada com Denis Podalydès (CACHÉ).
O início do filme é auspicioso. Os dois casais estão em Londres. A diretora brinca com referências a Beatles e constrói diálogos rápidos e divertidos. Mas a notícia da morte do Rei, morto num desastre de helicóptero, e o fato do irmão mais velho ser solteiro, faz com que Arnaud volte a seu país e prepare-se para assumir o poder.
A simplória Armelle sofre com a rápida ascensão, ainda mais por conta da frieza da sogra-rainha e do conselheiro da família real, René Guy, Michel Aumont, numa divertida composição, sempre a “pentear” a sobrancelha. Há óbvias e declaradas referências às cabeças coroadas da Espanha, Bélgica, Suécia… A diretora e também roteirista brinca com os exageros da mídia e com as absurdas tarefas da família real. Armelle deve doar sangue, visitar orfanatos, visitar países exóticos (engraçadíssima a cena em que, quebrando o protocolo, Armelle beija toda a comitiva que a recepciona no aeroporto, para desespero da Rainha), sempre com a inimizade da sogra, que não a acha preparada para o cargo. Porém, assim que Armelle descobre que seu marido e sua melhor amiga estão tendo um affair, a princesa começa a boicotar o marido e a rainha, divulgando anonimamente segredos de alcova. A partir desse momento, a la Princesa Diana, Armelle inicia um trabalho populista, muitas caras e bocas, e torna-se a queridinha do povo.
O problema de PALAIS ROYAL! é a mão exagerada na direção para comédia, com cenas por demais atrapalhadas, beirando o cine-pastelão. Há, obviamente, o clichê torta na cara. O roteiro se perde lá pelo meio e tudo se torna muito inverossímil. A frieza da rainha é um bocado irreal, e Eugénia torna-se uma vilã implícita. Ainda assim, há cenas para rirmos bastante, especialmente aquelas em que há Deneuve e Lemercier no mesmo quadro. Também a referência da rainha-mãe, a velhinha Alma (Gisele Casadesus) é divertida. Enfim, PALAIS ROYAL! é cinema francês com cara de comédia americana. Ainda assim, vale espiar Deneuve desesperada ao ver alguns plebeus entrarem na sua salinha secreta, no dia em que Armelle decidiu abrir as portas do palácio para o povo.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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