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categoria: CINEUROPA

NAS RUAS DE LISBOA

Nas ruas de Lisboa, e de outras cidades portuguesas, somos acostumados a conviver também com moradores de rua. O sonho europeu apresenta suas falhas e quem pensa que no primeiro mundo não há miséria está alienado. RUAS DA AMARGURA, película portuguesa recentemente exibida na mostra não competitiva do Festival de Gramado, tem seu maior trunfo naquilo que um documentário deve mesmo perseguir: o feeling em descobrir personagens que garantam excelentes testemunhos.

 

Nas ruas da Baixa, nas praças lisboetas, circulam indivíduos que apenas não são anônimos por conta da insistência (deles). Ainda que haja uma série de pessoas envolvidas em projetos para tirá-los da rua e mudar suas histórias de vida, eles lá permanecem, enfrentando temperaturas baixas, sujeira, violência e o olhar de desdém da população (similar ao que ocorre aqui).

 

Fernando Moedas é um andarilho que vive na Praça da Alegria, pede esmolas pelas estações de metro da cidade. Possui uma bela voz, canta em francês e é vaidoso. Bem-articulado, tem um olhar para o infinito, daqueles que estampam uma tristeza e, ao mesmo tempo, um alheamento. Através dele, se conhece uma imigrante ucraniana, alcoólatra, que perdeu um filho em solo português. E é ela a única personagem não lusitana; todos os demais são portugueses que, em algum momento, perderam-se de si mesmos.

 

Como a artista plástica inteligentíssima que cita Freud e Sartre. Estudante autodidata de psicanálise, tinha um desejo: ser pobre, pois somente a pobreza poderia trazer-lhe uma verdadeira experiência de afeto, sem interesses econômicos. Tarde demais, descobre que gostaria de possuir ao menos uma casa, onde pudesse pintar seus quadros e esculpir seus trabalhos em paz. Outra personagem notável é Cidália, mulher depressiva que caiu na prostituição e sente-se um peso para o filho de vinte e poucos anos. Há também o homem viciado em vinho, que visita a família para refeições, mas vai embora e dorme na rua. De centros comunitários a bancos em praças, esses personagens vagam à procura de algo pouco palpável: um sonho, um futuro.

 

O diretor Rui Simões, também jurado do Festival, é uma figura simpática que conversou gentilmente com Argumento.net. RUAS DA AMARGURA será lançado comercialmente nos próximos meses em Portugal. Todas as quartas-feiras, o diretor encontra-se com seus personagens sem-teto para trocar experiências e acompanhá-los. Traz um dado importante: nas comunidades de brasileiros, praticamente não há casos de miséria extrema, talvez porque eles acabam assumindo tarefas consideradas menos nobres, como faxina e coleta de lixo, o que muitos portugueses evitam. Entretanto, há uma rápida cena que mostra um travesti brasileiro em contato com uma voluntária.

 

O foco do documentário de Simões alterna-se entre os sem-teto e aqueles que os ajudam. Não é um filme didático, portanto tais depoimentos misturam-se, o que exige uma certa atenção do espectador. Contudo, há muita honestidade na câmera de Rui Simões, e mesmo quando os voluntários parecem quase convencer os moradores de rua a de lá saírem, causando um certo conforto ao espectador, essas tentativas parecem frustradas. Ainda que tenha havido certa manipulação ao combinar estes encontros, o diretor não se furtou em mostrá-los, embora a maioria deles não resulte em nada de concreto.

 

Para quem gosta de cultura portuguesa, este é um documentário imprescindível, pois mostra nossa ex-Coroa compartilhando de uma grave crise social, a mesma que existe na África, no Brasil, na Inglaterra, no Japão. Nossas ruas também se globalizaram.        

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Coordenador do departamento de estudos literários da Faculdade de Letras/PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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