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categoria: CINEUROPA

MALAS TEMPORADAS

(Malas temporadas, Espanha, 2005)
Direção: Manuel Martín Cuenca
Com Nathalie Poza, Leonor Watling, Javier Cámara, Eman Xor Omã, Gonzalo Pedrosa, Fernando Echevarría, Pere Arquillué, Raquel Vega

 

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Um empresário muito rico desesperado para ter um filho (e um pouco de afeto) com sua mulher, uma ex-cantora.

Uma ex-cantora que teve que aprender a conviver com uma cadeira de rodas, apaixonada por um cubano contrabandista.

Um cubano contrabandista, ex-piloto, depois de 5 anos na Espanha, a querer fazer vida em Miami, confidente de uma assistente social.

Uma assistente social em crise no trabalho e em casa, tentando motivar seu filho, um adolescente de 14 anos.

Um adolescente de 14 anos em depressão, trancafiado no seu quarto, que começa a reagir com a chegada de um professor de xadrez.

Um professor de xadrez, ex-presidiário, apaixonado pelo dono de uma taberna, com quem teve um envolvimento no passado, quando esse era seu ex-colega de cela.

Um ex-colega de cela que procura reconstruir a vida com sua família.

Sete personagens em busca de seu destino. Sete vidas e em comum o silêncio. A solidão. O quase-desespero.

MALAS TEMPORADAS, filme de Manuel Martín Cuenca (melhor diretor no Festival de San Sebastian em 2005), cresce aos poucos, inversamente proporcional à bela trilha de Pedro Barbadillo, que se inicia quase histérica, como aqueles personagens que se embaralham na tela. Lentamente, quase silenciosamente, o foco de cada um vai se aprofundando; as vidas surgem.

Entre as mulheres, a melhor atuação de um elenco coeso é Ana, assistente social e mãe de Gonzalo. Nathalie Poza, indicada ao Goya de melhor atriz por seu trabalho, está brilhante com sua falsa tranqüilidade que se transforma num horror crescente, pois se vê incapaz do básico, de dar esperanças ao filho, ao vê-lo trancafiado no quarto, a jogar videogame, num estado letárgico. Ao mesmo tempo, enfrenta uma crise na casa de apoio ao refugiado em que trabalha quando há um suicídio que, talvez, ela poderia ter evitado.

Com uma morte nas costas, e em contato com uma imigrante russa, mãe de um assassino, condenado à prisão perpétua na Rússia, que ainda assim acredita na vinda dele para a Espanha (Não fazemos tudo por nossos filhos?), Ana, mesmo sem palavras, debate-se sobre seu papel de mãe e de assistente social.

Outra bela atuação vem de Leonor Watling (FALE COM ELA, INCONSCIENTES), Laura, uma ex-cantora deficiente física perdida entre o marido carente e um amante cubano. Há uma cena em especial, quando é abandonada por Carlos, o amante (Eman Xor Omã, visto no Festival de Gramado com ROBLE DE OLOR). Histérica e frágil, Laura sai com sua cadeira de rodas por entre os carros, apenas os braços vivos, as pernas e a face mortas.

Mas é Javier Cámara (FALE COM ELA) quem surpreende, ao compor com sutileza um homem marcado pela prisão, obcecado pelo ex-companheiro de cela, mesmo que isso nunca seja dito. Cámara é Mikel, quase uma sombra a perseguir seu ex-amante, aniquilando-se e exemplificando cada passo como uma jogada de xadrez. Ao ser convidado por Carlos, seu vizinho, a dar aula de xadrez para Gonzalo (o bom estreante Gonzalo Pedrosa), a tentar auxiliar que o menino saia do quarto, também ele se dá conta de seu casulo e finalmente liberta-se.

Orquestrar personagens com tamanha profundidade não é tarefa fácil, mas Cuenca o faz com maestria e sensibilidade. Há dias difíceis, há períodos difíceis, há más temporadas. E o que pode ser feito quando não mais se acredita? Bela é a seqüência, a la MAGNOLIA, em que todos os personagens comungam de suas solidões, ao som de um sucesso de Laura (cantado mesmo por Watling), a famosa canção espanhola Vete.


El amor es algo bello que estropeas sin darte cuenta mujer
Sabes bien te di mi vida te di mis besos y ahora te alejas otra vez
Que es lo que quieres de mi
Que es lo que quieres que yo haga mas por ti
Todo el amor que yo tenia te lo di
Que quieres de mi ah que quieres de mí
Vete, vete me has hecho daño
Vete, vete estás vacía
Vete, vete lejos de aquí
Vete, vete no quiero verte
Vete, vete con tus mentiras
Vete, vete lejos de aquí

A distância entre os próximos, o limbo, o vazio… MALAS TEMPORADAS é uma obra a ser refletida muito além das salas de cinema.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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