(La raison du plus faible, França, 2006)
Direção: Lucas Belvaux
Com Eric Caravaca, Lucas Belvaux, Natacha Régnier, Patrick Descamps, Claude Semal, Gilbert Melki, Elie Belvaux
Num subúrbio de Liège, na Bélgica, alguns homens observam, à distância, uma fábrica de aço. Numa outra cena, um casal, Carole e Patrick (Natacha Régnier e Eric Caravaca), toma café da manhã junto do filho (Elie Belvaux, filho do diretor e ator). A mulher diz que o marido é perfeito. E a cena é realmente digna de comercial de margarina. Uma família feliz. A mãe pega a motoca e segue para o trabalho. O pai leva o filho à escola. Porém, as coisas assentam-se com crueza. A mãe chega numa gigantesca lavanderia, e é uma operária que madruga para receber um baixo salário. O pai vai a um café, onde joga pequenas quantias com seus amigos Robert e Jean-Pierre (interpretados com excelência por Patrick Descamps e Claude Semal).
Espécie de contrato social, sem nunca descambar para o panfletário, LA RAISON DU PLUS FAIBLE é uma história simples e bem contada, que mostra um outro lado nada glamouroso da Europa pós-comunidade. Não espere encontrar cenas belas e turísticas da desenvolvida Bélgica. Aqui, há o desemprego, o medo da perda dos poucos empregos que existem, a solidão e a frustração.
Os desempregados são Robert e Jean-Pierre, que perderam o lugar na fábrica de aço depois de anos de serviço, deixando um deles inválido. Mas também Patrick, jovem e com formação superior, não tem emprego. Suas tardes no café são regadas a pequenas amarguras, até que se junta ao trio o misterioso Marc (o belga Lucas Belvaux, também diretor e roteirista), ex-presidiário, que trabalha numa fábrica de cervejas nas redondezas.
A partir de um pequeno e aparentemente banal acontecimento – a motoca de Carole estraga e ela começa a acordar ainda mais cedo para ir trabalhar –, toda uma rede de situações se tece, elevando a tensão psicológica do filme. Patrick não tem dinheiro para comprar uma nova motinho, o que frustra a mulher e o filho. Ao mesmo tempo, o pai de Carole oferece dinheiro, o que deixa o marido humilhado. Há tentativas quase mágicas de resolução do problema, como apostar na loteria.
Numa segunda parte do filme, o drama cede espaço para uma comédia de humor negro. É quando os amigos desempregados decidem roubar a fábrica de aço para garantir dinheiro a todos os amigos. Divertidamente cruel é toda a preparação amadorística da turma, até o dia D. Fosse um filme americano, a simpática idéia teria frutos e, se os fins justificassem os meios, tudo daria certo e a Carole teria sua motoca. Mas é quando entra outra vez o drama… e Lucas Belvaux retoma a claustrofobia social e termina sua obra de forma surpreendente.
LA RAISON DU PLUS FAIBLE concorreu a Palma de Ouro em Cannes e seus méritos não acabam por aí. É um filme que consegue transitar entre diferentes gêneros, conta com um elenco muito forte e a mão segura de um jovem e promissor diretor-ator. Só isso já é suficiente para garantir nosso lugar na platéia.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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