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categoria: CINEUROPA

JANGADA DE PEDRA

A adaptação de uma obra literária é sempre um deslocamento em cima de um terreno arenoso. Impossível é tentar fazer de um filme um livro filmado, pelas óbvias razões das naturezas essenciais de cada uma das artes: literatura e cinema.

 

Adaptar José Saramago, possuidor de um verborrágico narrador, que sempre busca a desestabilização de seu leitor, é tarefa ainda mais difícil, uma vez que é necessário o apagamento desta que é uma das grandes marcas do escritor português. Há algum tempo, os palcos brasileiros receberam duas diferentes versões de duas das maiores obras de Saramago: Memorial do Convento, uma montagem pífia com Letícia Sabatella, e O Evangelho segundo Jesus Cristo, que muito bem funcionou no palco, ainda mais com a presença de Paulo Goulart em cena. A primeira tinha uma quase leitura de diálogos que não funcionavam no palco, soando artificial e esquemática, enquanto a segunda se deteve no maravilhoso duelo entre Deus e diabo do Evangelho de Saramago, uma das mais brilhantes passagens de uma de suas mais polêmicas obras.

 

No cinema, também não foi diferente. Se o brasileiro Fernando Meirelles conseguiu extrair lágrimas do escritor (conferidas em um vídeo muito acessado na internet), na construção de uma excelente obra que possui a essência de Ensaio sobre a Cegueira, mas que nunca abdica das características cinematográficas, o holandês George Sluizer faz de JANGADA DE PEDRA um desastre absoluto.   

 

Na Jangada de Saramago, há todo um jogo textual metafórico que, evidentemente, não pode ser transposto para a tela. Em Jangada de Pedra, o livro, um dia a península ibérica se desgruda da Europa, para espanto dos ibéricos, ex-europeus que reforçam a condição “à margem” desde sempre existente. Dentro deste microcosmos criado por Saramago, circulam cinco personagens e um cão (animal quase sempre significativo em sua literatura), cada qual com uma característica que comunga com o fantástico (ao sabor de um García Márquez, por exemplo), que representam o povo português e espanhol diante da perplexidade e, concomitantemente, acomodação frente ao fato novo. Um professor que é perseguido por milhares de estorninhos; um espanhol que sente a terra tremer embaixo de seus pés; uma portuguesa que fez um risco no chão e percebeu, naquele espaço, uma fenda surgir; um português que, ao jogar uma pedra na água, viu a mesma desafiar a lei da gravidade e escapar aos pulos da água; e um cão, guia de todos, que não late nem ladra, e possui um fio azul na boca que os levará a uma mulher solitária que destece uma roupa em um novelo de lã sem fim. Personagens que a todo momento se confrontam com a solidão e com uma espécie de vazio existencial, à beira de uma crise individual, de não pertencimento, de não ação, que muitos atribuem como características da identidade portuguesa, a conviver ad eternun com a sensação da saudade, da decadência, da perda do poderio, do desgoverno… assim, como uma ilha, uma jangada de pedra à deriva.

 

É notório que todo este material simbólico deveria ser muito bem trabalhado para que um filme a partir dele baseado não resultasse em algo incompreensível. Não é, porém, este o caso da película. O segundo resultado possível seria fruto de uma espécie de simplificação dentro da complexidade que Saramago construiu e, obedecendo a esta linha de ação, traria a confecção de um filme amorfo, com pitadas filosóficas literárias que soam forçadas na voz de personagens que nunca dizem a que vieram. E o pior, tudo isso dentro de um contexto esvaziado, sem a força desta separação, por exemplo. E é exatamente isso que essa Jangada traz.

 

O filme é fraco, a tal ponto que é quase necessária a leitura da obra para que se compreenda o que o diretor tentou fazer. Contudo, não é para isso que serve o cinema, para vir com manual de instruções. Há erros graves desde o casting: Gabino Diego literalmente destrói José Anaiço, transformando-o em um arremedo de personagem, caricato, canastrão, bobo. Possui sempre um risinho idiota na face, tentando dar um humor, mas simplificando os sentimentos. Os bons atores portugueses Diogo Infante e Ana Padrão não comprometem, assim como o ótimo ator Federico Luppi, mas os três não têm chance de maiores voos de atuação por culpa de um roteiro confuso, que mantém com a própria obra literária uma relação contraditória, e de uma direção ausente.

 

A contextualização do fenômeno é pobre. Parece que o roteiro ora se detém no evento em si, ora nos personagens em cena, não sabendo muito bem como reunir ambos em uma obra verossímil, ainda que fantástica. Sim, porque é esse o grande mérito de um escritor: por mais absurda, fabulosa, metafórica que seja uma situação, conseguir com que o seu leitor acredite naquilo que é narrado. Saramago faz isso com louvor. Na adaptação cinematográfica, percebemos personagens caricatos que elaboram discursos filosóficos que não soam humanos. Uma discussão simples sobre amor acaba se transformando em uma lição de vida sobre o amor. Isso não funciona. E aí que reside, a meu ver, o maior problema do filme: uma espécie de literaliedade da obra, trazendo em cena figuras pouco convincentes. Não se sabe muito bem de onde vêm essas pessoas, quem elas são, o que acreditam, por que se reuniram.

 

Os efeitos especiais são, igualmente, um caso à parte. Não que eles prejudiquem em demasia o filme, excetuando-se a cena ridícula da pedra atirada ao mar, que parece saída de um filme escolar amador. Os estorninhos, referência óbvia e declarada de Saramago a Hitchcock, fazem muitos movimentos no ar, mas não chegam a incomodar muito. E as cenas relacionadas à abertura da fenda são bem realizadas.

 

Isso significa que a produção, de modo geral, foi bem executada. Então o que deu errado? Talvez a verificação evidente de que as tentativas de apropriação de um texto literário resultam catastróficas se os roteiristas do lado de lá não possuem também uma sensibilidade ao ler a obra. A obra de Saramago foi mal lida, mal representada. Falta direção. Sobra discurso vazio. É uma pena, mas esta JANGADA DE PEDRA tem a consistência de um barquinho de papel.       

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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Comentários

Um comentário para “JANGADA DE PEDRA”

  1. Olá, Paulo!!!!

    Concordo com você. Tive o privilégio de assistir “Ensaio Sobre a Cegueira” , e o filme é simplesmente o máximo!!!!

    Sempre que assisto um filme resultado da adaptação de um livro – como é o caso de Ensaio – , fico curiosíssima pra ler o livro; e só descanso quando leio!!!

    É mesmo muito difícil transformar um bom livro num bom filme. Exige muito talento, algo que o nosso Fernando Meireles tem de sobra!!!

    Assisti outro filme adaptado de um livro, e confesso que ele não me proporcionou o mesmo prazer que o Ensaio Sobre a Cegueira; talvez isso tenha acontecido porque eu li o livro antes e, como fui assistir ao filme esperando que fosse tão bom quanto o livro, decepcionei-me.

    Quanto a Ensaio, o prazer foi tanto, que até rendeu um “papo cabeça” depois do filme; fui ver o filme com o namorado que tive naquela ocasião que, por ser um cinéfilo confesso – ele tem uma coleção de filmes – escolhe os filmes que assiste a dedo, que é pra poder conversar depois sobre eles.

    Como também gosto, sempre que possível, de poder conversar sobre os filmes que assisto – quando vejo que o filme vale isso – , juntamos a fome com a vontade de comer, e conversamos muito!!!!

    PARABÉNS pelo texto!!!! Brilhante, muito bom mesmo!!!! Abraço, Thalyta

    Posted by Thalyta Vilella | June 10, 2009, 7:37

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