Os valores de cada um. O filme francês HORAS DE VERÃO, de Olivier Assayas, faz um verdadeiro inventário emocional e econômico na vida de uma família após a morte da mãe.
Hélène Berthier (vivida pela elegante Edith Scob) possui três filhos e vive em uma casa só visitada por eles ocasionalmente. Seu tio era um grande pintor, por isso há todo um legado artístico na residência. Depois da repentina morte da mãe, cada um dos filhos reage de uma forma diferente. O mais velho, Frédéric (Charles Berling) é o único que “pensa com o coração”. Pensa nos dias vividos, traz à tona todas as suas memórias afetivas e o que aquele espaço representou em sua vida. Além do mais, pretende que seus filhos e sobrinhos possam usufruir do mesmo. A irmã do meio Adrienne (Juliette Binoche, loira) é designer de utilidades domésticas – o que a faz entrar em choque com relação à funcionalidade dos objetos X valor estético e artístico com a mãe – vive nos Estados Unidos e não tem planos de utilizar aquela casa. E o caçula Jérémie (Jérémie Renier) precisa de dinheiro para tocar a sua vida na China.
O embate dos três é delicado, mas percebe-se que a bomba pode estourar a qualquer momento. Como é possível tomar uma atitude que satisfaça os três filhos? Quem sai perdendo: quem quer manter as lembranças vivas ou aquele que gostaria de tocar a vida para a frente e vender tudo? Junto ao trio, há excelentes personagens coadjuvantes, como a empregada da casa, Eloíse (Isabelle Sadoyan), fiel companheira de Hélène, que leva de presente um vaso, para ela significativo, sem saber que o mesmo é valiosíssimo, fazendo parte de um par com alta assinatura artística. O outro, idêntico, acaba em exposição no Museu. Aliás, a questão da arte também é debatida, tanto com relação ao vaso de Eloíse (o vaso enquanto objeto que terá sua função eternizada por ela em sua casa versus o vaso sem função de vaso, mas como objeto de arte, em exposição no museu) quanto com outros móveis da residência, que igualmente vão parar no museu. Uma bela cena é quando Frédéric e a esposa “visitam” seus antigos móveis no museu.
Com a belíssima fotografia do aclamado Eric Gautier, um elenco brilhante e um roteiro tão simples quanto comovente, HORAS DE VERÃO é uma aula de cinema e uma lição de vida. A obra fazia parte inicialmente de um projeto, criado pelo belíssimo Museu D’Orsay, para desenvolver alguns curta-metragens. A ideia não vingou, mas Assayas resolveu continuar, mesmo assim. Ainda bem.
Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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