LAS CHICAS DE LA LENCERIA (DIE HERBSTZEITLOSEN) – com direção de Bettina Obberli, – foi um dos filmes a que tive a oportunidade de assistir quando em viagem ao Chile. A película, candidata da Suíça ao Oscar de Filme estrangeiro no ano passado, conta a história de Martha (Stephanie Glaser), senhora de oitenta anos que recentemente perdera o marido e descobre um novo sentido à sua vida, apesar da longeva idade.
Morando em uma cidadezinha provinciana e pacata, a protagonista renasce, incentivada pelas suas amigas, ao resgatar um sonho há muito deixado para trás. Martha, que é proprietária de um estabelecimento comercial onde, até então, funcionava um pequeno mercadinho, por ela administrada, é pressionada pelo filho, o pároco da cidade, a ceder este espaço para as reuniões do culto e finalmente se aposentar. Entretanto, ao invés disso, ela resolve produzir lingeries e abrir uma loja destes artefatos femininos. Faz tudo em segredo do filho e das demais pessoas do vilarejo. Ao inaugurar a loja, por morar em um local muito moralista e tradicional, somado ao fato de ser mãe do representante religioso do local, é fortemente boicotada pela comunidade.
A partir de então, a trama desenvolve um perfil psicológico dos personagens da comunidade, revelando máscaras sociais, hipocrisia, desamparo e vários outros sentimentos pouco nobres escondidos no pacato vilarejo.
Apesar de ser classificado como uma comédia, diria que o presente filme retrata com bastante propriedade e delicadeza as vicissitudes do ser humano. Ainda que seja um filme leve e de entretenimento, traz consigo questionamentos e indagações juntamente a uma mensagem otimista a respeito dos sonhos e da possibilidade de concretizá-los, independentemente de idade. Levando-se em conta o caráter alegórico do filme, é possível fazer certas abstrações de verossimilhança em alguns momentos da narrativa, sem que isso prejudique o andamento do mesmo, como no caso da confecção da bandeira do vilarejo.
A despeito de retratar aspectos da terceira idade de forma risível, o que não é propriamente uma idéia original – vide GAROTAS DO CALENDÁRIO, entre outros – tanto o roteiro quanto a direção de atores são muito bem conduzidos, permitindo ao espectador, durante os oitenta e seis minutos de sua duração, refletir, quase que de forma catártica, com os personagens da tela grande. O grande mérito do filme reside no fato de se comunicar diretamente com o espectador como se ele pertencesse ao vilarejo no qual acontece toda esta reviravolta. Percebe-se o espectador como um cúmplice de todas as ações da comunidade, podendo, desta sorte, formar sua própria convicção a partir dos elementos trazidos à discussão.
Leve, engraçada, poética e otimista são as qualidades principais que se podem destacar desta película suíça. O espectador passa bons momentos de descontração e sai do cinema refletindo aspectos abordados pelo filme. Tomara que este título seja distribuído também no Brasil para que seja alvo de apreciação do nosso público, já que se trata de um tema bastante universal.
Marcelo Brody - Cursou arquitetura na UFRGS, publicidade na PUC, mas acabou formando-se em direito. Adora cinema, teatro e literatura. Seus amigos dizem ser ele um verdadeiro gourmet. Vive em Porto Alegre.
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