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categoria: CINEUROPA

ALICE

(Alice, Portugal, 2005)
Direção: Marco Martins
Com Nuno Lopes, Beatriz Batarda, Miguel Guilherme, Ana Bustorf, Laura Soveral, Gonçalo Waddington

A perda de um filho é dor que tem marcado presença nas artes em geral. Aqui em Portugal, há, casos recentes, o belo livro de Rodrigo Guedes de Carvalho, Mulher em branco, e o filme ALICE, de Marco Martins. Em ambos os casos, o mergulho no desespero pelo fato de um filho estar desaparecido.

Vivo ou morto? O que mais incomoda pode ser o não saber em que pensar. Em ALICE, numa das primeiras cenas, vemos o pai, Mário, (Nuno Lopes, conhecido no Brasil por seu papel na novela global Esperança), a espalhar cartazes com a foto da filha por Lisboa. A historia começa in media res. Já vemos um pai esmigalhado pela perda de meio ano, a gravar cenas cotidianas em pontos estratégicos de Lisboa. Ele posiciona suas câmeras em zonas de grande movimento, que perfazem o caminho que fez com a filha no dia de seu desaparecimento. Depois, retira as fitas e assiste as 11 ao mesmo tempo, num dilacerante desespero.

A mãe, interpretada com competência por Beatriz Batarda, sofre em silêncio. Extraordinária a cena em que o triste casal sai para jantar no dia em que Alice faria anos. Luisa come sem vontade batatas fritas, quase num mundo só seu, pergunta-se como elas ficam todas com o mesmo tamanho, enquanto suas lágrimas escorrem. Um desespero quase silencioso. Mas há o grito e o pesadelo quando o diretor joga na cara da platéia a cena em que o casal vai à polícia notificar o desaparecimento da filha. Há o contraste entre a frieza do policial que anota os dados e o terror crescente do casal, em especial da mãe, que berra pela filha num desespero dilacerante.

Contudo, o filme é de Nuno Lopes. O jovem ator português está extraordinário, numa composição nervosa e tensa, sempre à beira do abismo. Toda a seqüência na qual segue a pista de uma menina muito parecida com a filha, até o seu frustrante término, merece destaque. O personagem persegue a menina, mas nunca avança, defendendo-se da decepção. Em caso negativo, em que acreditar? Dito e feito. Mário desaba.

Lisboa é também personagem de ALICE. A capital portuguesa aparece sem glamour, e a câmera visita seus característicos metros, comboios, passeia pelo Rossio, pela Avenida Augusta, Restauradores, República, apresentando uma grande cidade, pela qual milhares transitam, quase anonimamente. A bela música de Sasseti é outro grande destaque.

Candidato português a concorrer a melhor filme estrangeiro, no Oscar, ALICE acumula importantes prêmios no currículo, como o Prix Regards Jeune, em Cannes, e três em Mar del Plata, além de outras indicações.

ALICE tem uma narrativa lenta, mas bela em vários momentos. O pai que se esquece do presente e estanca no passado, acabando por permitir que quem com ele conviva – como a esposa – mergulhe também no limbo. Entretanto, as últimas cenas são desnecessárias. Tornam-se inverossímeis e, mais grave, quase soam moralistas, do tipo: não adianta correr atrás, obstinadamente, de algo, pois esse algo pode cruzar com você de forma aleatória. E isso parece um tanto simplista. De qualquer forma, ALICE é uma excelente estréia. É promissora a vinda de Marco Martins ao longa-metragem.

Paulo Ricardo Kralik Angelini - Formado em Publicidade e Letras, doutor em literatura brasileira/portuguesa. Professor na Faculdade de Letras/Estudos Literários PUCRS. Editor do site argumento.net, é autor da COLUNA CONTEXTO.
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